O
SURTO DE AGOSTO
Naufrágio à vista
Informação:
Observatório
da Imprensa - 17/08/2004
Alberto Dines
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou os jornalistas
que o acompanham em Santo Domingo de "um bando de covardes",
por não defenderem o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ)
Este
Observador aceita a acusação. Considera-se covarde,
sim, por não dizer com todas as letras o que pensa de
um presidente que não sabe comportar-se como árbitro.
O
presidente Lula ora perde a cabeça, ora brinca; o ministro
Dirceu esperneia, a Fenaj denuncia. Cada um à sua maneira
representa seu papel nesta tragicômica tentativa de impor
o renascimento do peleguismo do Estado Novo por meio da criação
do CFJ.
A
grande verdade é que a verdade triunfou: o governo está
sendo flagrado com o garrote (ou a borduna) na mão, a
histeria denuncista foi finalmente exibida como jogada de empresas
de mídia para favorecer interesses escusos, e a voracidade
da CUT-Fenaj foi bombardeada por todos os setores da sociedade.
O seu projeto hegemônico está fazendo água
e, como sempre acontece, o desespero impôs-se como tática.
Esquecido
o tom civilizado, a Fenaj agarra-se ao recurso de desqualificar
aqueles que discordaram do projeto. Todos os profissionais que
ousaram pronunciar-se contra o CFJ foram considerados indistintamente
pelo comando sindical – e pelos acólitos do governo
– como joguetes dos "barões da mídia".
Inclusive este Observatório da Imprensa, que está
na lista negra de diversas publicações brasileiras.
O
ministro José Dirceu reclama do patrulhamento, mas patrulhados
violentamente estão sendo aqueles que ousaram discordar
de uma jogada prepotente que, segundo todos os indícios,
tem suas impressões digitais.
No
desespero, os conselhistas não fizeram as contas nem
anotaram que contra eles está fina flor da nossa imprensa:
(pela ordem alfabética) Alcino Leite Neto, Arnaldo Jabor,
Clóvis Rossi, Dora Kramer, Eliane Cantanhêde, Elio
Gaspari, Fernando Rodrigues, Jaguar, Janio de Freitas, João
Ubaldo Ribeiro, Luiz Garcia, Luís Nassif, Merval Pereira,
Miriam Leitão, Otavio Frias Filho, Teresa Cruvinel, Vinicius
Torres Freire e Zuenir Ventura. A lista não inclui os
comentaristas de rádio, televisão e os observadores
da imprensa que aqui militam.
Anjo
torto
Desde
os tempos da resistência à ditadura que não
se consegue arregimentar um batalhão tão expressivo
de jornalistas em favor de um causa política. A pretensão
da CUT-Fenaj é tão estapafúrdia, a jogada
tão primitivamente urdida, a exposição
de motivos de Ricardo Berzoini tão canhestramente exposta
que a unanimidade produziu-se de forma automática e instantânea.
Como
disse o presidente do STJ, o ministro Edson Vidigal (ex-jornalista
profissional), o anteprojeto é claramente inconstitucional,
será barrado de saída na Comissão de Constituição
e Justiça. A idéia é liminarmente autoritária,
não cabe numa democracia, contraria flagrantemente as
cláusulas pétreas da Carta Magna. Mesmo assim
não se pode deixar de lado algumas de suas aberrações.
No artigo 7, inciso III, no rol das penalidades que poderão
ser aplicadas aos jornalistas, está lá, com todas
as letras, a palavra censura. E não se pense que a abominável
expressão está lá no sentido de repreensão.
Antes, quando se tratou das penalidades, mencionou-se a advertência
(inciso I).
(...)
Art.
7º As penas aplicáveis por infrações
disciplinares são as seguintes:
I
– advertência;
II
– multa;
III
– censura;
IV
– suspensão do registro profissional, por
até trinta dias; e
V
– cassação do registro profissional.
(...)
Apesar
do inevitável naufrágio do anteprojeto do CFJ
é imperioso manter a disposição de corrigir
as disfunções básicas da nossa mídia.
O ressuscitamento do affaire Ibsen Pinheiro – nosso caso
Dreyfus – mostra as catastróficas dimensões
da crise que assola nossos meios de comunicação
há uma década. Fica claro que o problema não
é econômico. Em plena vigência da "bolha"
imperavam os desatinos [leia a rubrica Imprensa em Questão,
nesta edição].
Nossa
mídia mostra sinais manifestos de fadiga de material.
Está visivelmente desacreditada e concentrada (sobretudo
nas pequenas e médias áreas urbanas). Não
alcança partes importantes do país e quando alcança
o faz de forma precária.
A
farta distribuição de canais de rádio e
TV ao tempo de José Sarney na presidência e Antonio
Carlos Magalhães no ministério das Comunicações
começa a oferecer os primeiros resultados: o sistema
de concessões veio para ficar, dificilmente será
modificado porque o Legislativo deixou de ser um poder independente
– está dominado pelo lobby dos empresários
de comunicação eletrônica.
Não
apenas o Legislativo: também o Executivo, por força
dos compromissos com sua "base de sustentação
política". A melhor prova
da capitulação do governo às demandas dos
congressistas-empresários de mídia está
na portaria 1.597, do Ministério da Justiça, discretamente
assinada em 4 de agosto para atender as pressões das
redes de TV e abrandar a exigência de uma classificação
de conteúdos de acordo com horários e faixas etárias.
Aqui,
ao contrário da intervenção que tentou
por meio do CFJ, o governo finge-se de anjo. Esquece completamente
as exigências constitucionais no tocante à classificação
dos espetáculos e resolve entregar às famílias
– isto é, a ninguém – a decisão
final sobre os conteúdos oferecidos aos filhos menores
na telinha da TV.
Uma
distorção
Enquanto
o deputado petista Orlando Fantazini comanda solitária
e heroicamente a campanha contra a baixaria televisiva, a burocracia
do Ministério da Justiça – sensível
aos interesses das redes de TV populares e evangélicas
– abre mão do seu poder de controlar as concessões
públicas no campo da comunicação eletrônica.
Esquizofrenia
pura: no caso do jornalismo, o cacete; no caso da baixaria televisiva,
a complacência e a cumplicidade.
O texto que Cláudia Chagas e José Eduardo Romão
(pela ordem, secretária nacional de Justiça e
diretor do departamento de Classificação de Programas)
publicaram no Globo (quinta, 12/8, pág. 7) é um
clássico, digamos, de ingenuidade.
Uma
palavra final aos que preferem raciocinar de forma linear no
lugar de atentar para as complexidades do sistema democrático:
o fato de existirem Conselhos (federais e regionais) das mais
diferentes corporações profissionais não
significa que deva existir um Conselho Federal de Jornalismo.
Esta compulsão isonômica foi a perdição
dos que elaboraram o anteprojeto.
Um
Conselho Federal de Jornalistas escaparia da armadilha de intervir
no jornalismo, isto é, na imprensa. Por isso, aventou-se
como solução, a Ordem dos Jornalistas similar
à Ordem dos Advogados.
Não
se trata da simples troca de nomes – em vez de um Conselho,
uma Ordem. A própria concepção, objetivos
e formulação da nova entidade teria que ser drasticamente
alterada. O Conselho Federal de Jornalismo com este nome, esta
natureza e este objeto é uma distorção.
Ele é o passado. Não adianta revivê-lo nem
adianta adaptá-lo.
NOTAS
DE UM LEITOR
O abate sem debate do CFJ.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 17/08/2004
Luiz Weis
O
projeto do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) é um
cadáver insepulto. Em editoriais, colunas, artigos e
reportagens, foi antes abatido do que debatido pela mídia.
As
manifestações que, no limite, beiraram o jornalismo
pitbull prevaleceram sobre aquelas que, embora também
refratárias à proposta, deixaram clara a preocupação
dos seus autores em manter a compostura que o público
tem o direito de exigir dos praticantes do ofício.
Compostura
não é escrever com luvas de pelica – nem
chamar urubu de meu louro. É o modo como donos de empresas
jornalísticas e jornalistas deveriam apresentar os fatos
e emitir juízos de valor sobre eles, com vigor e clareza,
mas também com cuidados éticos tanto maiores quanto
mais polêmicas as questões, sobretudo quando dizem
respeito direto à sua atividade. Para não enfiar
opiniões a muque em cabeça alheia.
Ao
longo de uma semana em que o grosso da imprensa escreveu, como
se dizia antigamente, algumas de suas páginas mais memoráveis
– só que desta vez no mau sentido –, objetividade,
fairness, senso de proporção e esforço
honesto para mostrar os múltiplos lados do assunto perderam
espaço para a simplificação, o facciosismo
e o insultório. E para a fúria desatada, em alguns
casos.
No
supermercado da palavra imaginado muitos anos atrás pelo
jornalista Sidnei Basile, se não falha a memória,
houve uma corrida às gôndolas dos adjetivos. "Stalinista"
foi consumido feito pão quente.
Publicações
que tão recentemente quanto em 2002 apoiaram uma tentativa
de golpe de Estado (na Venezuela) enrolaram-se na bandeira da
liberdade de imprensa e apontaram o projeto do CFJ como a ponta
de um golpe branco arquitetado pelo governo Lula.
A
concepção de democracia de um certo número
de inquilinos e freqüentadores do Planalto pode não
ser flor que se cheire. Nem por isso a mídia conseguiu
provar que uma coisa descende da outra. Ficou no simplismo e
na inculpação por associação.
Foram
muito poucos, perto do que se precisaria fornecer à opinião
pública numa sociedade democrática, os comentários
que pediam da mídia menos virulência (contra a
idéia de um conselho de jornalistas em geral e o CFJ
em especial) e mais discussão (sobre as formas de promover
os compromissos éticos da imprensa na era da sua oligopolização
sem freios nem contrapesos).
"Proposta
bombardeada"
A
rigor, só no último domingo, 10 dias depois das
primeiras notícias sobre o projeto, ganharam algum peso
as críticas ao desempenho da mídia e o chamamento
a um debate abrangente dos temas implícitos na iniciativa
– em vez de simplesmente se condená-la ao "lixo",
como se leu em pelo menos um editorial, e decretar que se está
no melhor dos mundos possíveis, em que a Justiça
e o mercado dão conta de corrigir os vexames éticos
do jornalismo.
O
ombudsman da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, ressaltou que
"a proposta foi bombardeada na imprensa". Observou
que "ao carimbá-lo como chapa-branca, o jornal omitiu
[que] o texto tinha sido gerado nos sindicatos profissionais".
Registrou que, nas reportagens da Folha, "as opiniões
desfavoráveis tiveram muito mais destaque e foram repetidas
diversas vezes". E concluiu: "Esse desequilíbrio
não permitiu que a proposta fosse debatida com mais profundidade".
E
olhe que a Folha nem levou o ouro na modalidade desequilíbrio.
Nenhum grande jornal parece ter superado O Estado de S.Paulo
no quesito bombardeio – a começar da cobertura.
Indício
de que o diabo está nos detalhes, reportagem publicada
na edição de 7/8, depois de citar a "presidente
da Fenaj" Beth Costa (ex-presidente, na realidade), contém
um período que começa com: "Ela pouco se
importa que…". À parte o mau português,
é o tipo de comentário feito para indispor o leitor
com a fonte, que os manuais da profissão restringem a
textos opinativos – e olhe lá.
Ainda
em 7/8, o jornal informou que o ex-presidente do Sindicato dos
Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas, considera
o projeto "extremamente perigoso". Três dias
se passaram até o leitor do Estadão ficar sabendo
que "Audálio vê com bons olhos a criação
do CFJ" (embora tenha revelado "temer pela liberdade
de imprensa quando viu no projeto do governo a insistência
em usar os verbos ‘orientar’ e ‘disciplinar’").
A
rigor, os verbos só aparecem uma vez cada no projeto.
Melhor seria, este leitor faz questão de afirmar, que
não aparecessem nunca.
Melhor
seria também, como revelou neste Observatório
o jornalista Maurício Tuffani, que a Casa Civil do Planalto,
ao canetar o projeto da Fenaj, não tivesse acrescentado
o ameaçador "da atividade de jornalismo", depois
do "exercício da profissão de jornalista"
que o Conselho teria a atribuição de "orientar,
disciplinar e fiscalizar".
Ainda
assim, não se justifica o que o cientista político
Fábio Wanderley Reis, da UFMG, em entrevista à
Folha de 15/8 – um oásis de análise serena
e fecunda – chamou delicadamente de "um pouco de
exagero", ao falar da reação da mídia
ao projeto e da sua arquidenunciada "inspiração
autoritária".
O
clima que se criou – e que no seu pior chegou a lembrar
o ranger de dentes dos jornalões brasileiros no pré-1964
– estimulou um deprimente vale-tudo.
Comentando
notícia sobre a reação do presidente Lula
ao título de primeira página da Folha sobre o
salto da prefeita Marta Suplicy nas pesquisas – "Vocês
viram a Marta? Que bela manchete", teria dito Lula –
a coluna "Toda Mídia", do mesmo jornal, saiu-se
com o seguinte comentário: "É só de
manchetes assim que o presidente, o mesmo do Conselho Federal
de Jornalismo, gosta. Manchete feia não pode".
Isto
posto, seria faccioso não registrar, com o proverbial
por outro lado, que o governo como que se esmerou em oferecer
à mídia assanhada o flanco mais descoberto que
ela poderia desejar.
Quando
o ministro Luiz Gushiken dá de dizer, na hora mais inoportuna,
além do mais, que "a liberdade de imprensa é
um valor definitivo na democracia, mas numa sociedade nada é
absoluto", os barões da mídia ganham um alvo
para apedrejar sem susto.
E
o presidente Lula – o mesmo a quem não se poderia
atribuir maldosamente a vontade de escrever as manchetes da
imprensa brasileira, só porque se regozijou com a bela
manchete sobre o avanço da sua candidata em São
Paulo – deveria ter mordido a língua antes de dizer,
embora em tom de brincadeira, que só daria entrevista
se os repórteres começassem "a defender o
Conselho de Imprensa". Ou de chamar os jornalistas de “bando
de covardes” por não terem tido “coragem
de defender o conselho” — uma tirada de humor truculento.
"Constrangimento
da exposição"
No
fim da semana, sob o impacto da tardia denúncia –
passados 11 anos!– do jornalista Luís Costa Pinto
sobre o erro que o então editor da Veja, Paulo Moreira
Leite, teria bancado a todo custo e que foi fatal para o deputado
Ibsen Pinheiro –, três colunistas encararam a óbvia
relação entre o escândalo e o enforcement
da responsabilidade jornalística.
Dora
Kramer (Estado e JB):
"Nenhum
conselho controlador teria o poder de evitar casos como
esse. Mas a imprensa livre tem pelo menos como, pelo constrangimento
da exposição pública, contribuir
para que se mantenham no terreno das exceções".
Teresa
Cruvinel (O Globo):
"Quando
o governo se dispõe a desistir da proposta de criação
do CFJ, a confissão do jornalista Luís Costa
Pinto confirma que, com ou sem conselho, as práticas
da imprensa podem e devem ser discutidas. Por todos".
Eliane
Cantanhêde (Folha):
"O
‘mea culpa’ (…) corrobora minha posição
desde o início: a favor da discussão sobre
algum tipo de olhar externo sobre a atividade jornalística
e contra um conselho em forma de autarquia proposta pelo
presidente".
A
imperdoável asfixia da discussão defendida por
Teresa Cruvinel e Eliane Cantanhêde impediu que se fosse
ao fundo de um dos principais problemas do exercício
ético do jornalismo: bastará o "constrangimento
da exposição pública" de que fala
Dora Kramer para ao menos reduzir a incidência de denuncismos
como o que destruiu a reputação e partiu a alma
do também jornalista Ibsen Pinheiro?
Este
leitor pensa que não. Quantos leitores perderá
ou deixará de ganhar a Veja – a se confirmar que
a versão de Costa Pinto é verdadeira – por
causa de uma matéria mentirosa publicada em novembro
de 1993?
Até
porque o "olhar externo" mencionado por Eliane Cantanhêde
teria mais coisas a enxergar do que os linchamentos morais cometidos
pela imprensa e que lhe custam pouco ou nada. Vamos lá.
"Existem
muitas maneiras de relatar um fato, inúmeras interpretações
a seu respeito. E nenhum critério seguro para definir
qual delas é a melhor. O melhor serviço prestado
pelo jornalismo é divulgar a riqueza desse contraditório",
escreveu Otavio Frias Filho, na Folha. Perfeito.
Essa
é a tradição da imprensa brasileira? É
isso que faz – se não sempre, ao menos a maioria
das vezes – o que a nossa mídia tem de mais poderoso
e influente?
Para
não ir mais longe, divulgar a riqueza do contraditório
foi tudo que a imprensa não fez em relação
ao projeto do CFJ.
"Em
um mundo ideal"
Diga-se
desde logo que um motivo legítimo de oposição
ao CFJ da Fenaj é o seu potencial de limitar a liberdade
de imprensa, o qual talvez não seja tão grande
como se apregoou, mas que existe, existe.
Faltou
demonstrar, no entanto, que seria impossível refazer
o projeto, expurgando-o de tudo que pudesse ser entendido razoavelmente
como parte desse potencial cerceador.
A
menos que se acredite que nenhum conselho seja necessário
para defender a sociedade dos maus jornalistas, e os bons jornalistas
dos maus patrões, para quem a integridade da informação
conta menos do que a afirmação de suas idéias,
intenções e interesses.
Nem
mesmo um organismo autônomo, desestatizado, dessindicalizado
e legitimado pela corporação, na linha da Ordem
dos Jornalistas proposta pelo deputado Celso Russomanno, do
PP de São Paulo – que também merece um exame
despreconcebido (excluídos os seus aspectos folclóricos,
como o traje dos profissionais e o seu direito de sentar-se
ou ficar em pé).
Comentando
a questão brasileira, o Financial Times argumentou:
"Em
um mundo ideal, a regulamentação da mídia
deveria ser responsabilidade dos leitores, ouvintes
e telespectadores, e a punição dos jornalistas,
a perda de credibilidade. Os prejudicados por abusos
da imprensa deveriam buscar reparação
nos tribunais. E os que passam documentos confidenciais
para a mídia também deveriam ser processados,
quando isso infringir a lei."
Dessas
54 palavras, as mais importantes são as quatro primeiras.
Em
um mundo ideal, para começo de conversa, o noticiário
de órgãos de mídia não seria construído
de forma a fazer coro com "a posição da casa".
Como foi, predominantemente, no caso do projeto do CFJ.
Com
perdão pela platitude, o poder de formar opinião
está muito mais no conteúdo informativo de um
jornal – desde o que nele se considera noticiável
até o modo como a notícia é apurada, editada
e publicada – do que nos editoriais e nos textos opinativos.
E
como bem sabe qualquer jornalista que já tenha perdido
os dentes de leite, a "editorialização"
menos ou mais sutil do noticiário é a norma não
escrita em muitas publicações e emissoras. Ele
se impõe aos critérios técnicos que –
embora falíveis e sujeitos a eternas controvérsias
– deveriam ser os únicos a determinar o que e como
será servido ao leitor/ouvinte/espectador. Em um mundo
ideal, claro.
No
mundo real, acontece o que o ombudsman Marcelo Beraba flagrou
nas reportagens da Folha na semana passada. Elas contêm
15 opiniões favoráveis ao CFJ e 14 contrárias.
"Mas é um equilíbrio apenas numérico",
comenta Beraba, "porque as opiniões desfavoráveis
tiveram mais destaque ao longo da semana e foram repetidas diversas
vezes."
É
o caso de perguntar se esse padrão seria adotado se o
editorial do jornal sobre o assunto, já no domingo, 8/8,
fosse agressivamente favorável ao CFJ, em vez de agressivamente
contrário.
"Liberdade
para alguns"
Coisa
de meio século atrás, o jornalista Cláudio
Abramo ensinava aos focas do Estadão que a liberdade
de imprensa é antes de mais nada a liberdade dos donos
da imprensa.
No
íntimo ele decerto sabia que simplificava uma questão
tremendamente complexa, mas isso tinha lá a sua utilidade
para acabar com as ilusões de noiva da rapaziada sobre
as possibilidades do ofício.
E
ele estava mais certo do que errado.
O
secretário de Imprensa do presidente Lula, Ricardo Kotscho,
também tem certa razão quando escreveu na Folha
de 10/8 que se deve garantir à sociedade "a plenitude
da liberdade de imprensa, e não a liberdade para alguns
profissionais e algumas empresas divulgarem o que bem entendem
a serviço dos seus interesses".
No
debate que não houve sobre o CFJ, perdeu-se a oportunidade
de pôr em evidência o fato de que profissionais
e empresas têm o mesmo interesse objetivo na defesa intransigente
da liberdade de imprensa – mas não necessariamente
pelos mesmos motivos. O que faz uma tonelada de diferença.
No
último dia 12, o repórter de mídia do Washington
Post, Howard Kurtz, publicou uma caudalosa matéria (mais
de 3 mil palavras) que conta a inside story do tratamento dado
pelo jornal às alegações do governo Bush
sobre as supostas armas de destruição em massa
de Saddam Hussein.
O
Post, como o New York Times e toda a grande imprensa americana
compraram – e venderam – pelo valor de face o pretexto
da Casa Branca para a guerra ao Iraque. Em geral, tudo que levava
água para o moinho do presidente tinha aceitação
garantida e lugar na primeira página. Tudo que se lhe
opunha ou ia para o lixo ou para a enésima página
do caderno nacional.
"Tais
decisões coincidiam com o apoio à guerra da página
editoral do Post", escreve Kurtz. "Esses editoriais
levaram alguns leitores a concluir que o jornal tinha uma agenda
[no sentido de objetivo extra-jornalístico], embora exista
uma barreira do tipo Igreja-Estado entre a redação
e as páginas de opinião."
No
Brasil, onde essa barreira costuma ter mais furos que um queijo
suíço, alguns leitores não poderiam ser
criticados se concluíssem que o bombardeio do projeto
do CFJ no noticiário emanava das "páginas
de opinião" – ou, sem eufemismo, ecoava a
voz do dono.
Isso
evidentemente não explica por que a maioria absoluta
dos jornalistas com redação própria –
aqueles que têm espaço garantido para escrever,
assinam o que escrevem e escrevem com independência –
escreveram contra o CFJ.
Mas
não consta que algum jornal ou revista tenha estimulado
jornalistas a escrever a favor do projeto, em nome da pluralidade.
Na Folha, entre sete artigos de opinião visitados pelo
ombudsman, apenas um (o do já citado Kotscho) apoiava
o conselho.
"A
posição da casa"
Rebatendo
a declaração de um dirigente da Fenaj de que "um
jornalista que é obrigado a escrever sobre algo que é
contra a ética, porque o padrão determina, não
tem a quem recorrer", um comentarista disse que esse profissional
não só pode como deve se demitir – e se
não o fizer é porque não tem princípios
éticos a defender.
Até
parece que o autor nunca entrou numa redação,
onde o que não falta são profissionais amargurados
ou que sucumbiram ao cinismo como estratégia de autodefesa
exatamente porque não podem se demitir quando obrigados
a adaptar o noticiário – em qualquer das etapas
do processo, da pauta à edição final –
para não destoar da "posição da casa"
(que dirá colidir com ela).
Primeiro,
porque – a menos que faça parte do topo da elite
do ofício, e olhe lá – as suas chances de
conseguir outro emprego semelhante no Brasil de hoje serão
as que todos estão fartos de saber. Segundo, porque,
ainda que consiga, as suas chances de topar de novo com a mesma
afronta ao seu senso ético e profissional são
as que todos estão fartos de saber.
Em
suma, o projeto da Fenaj pode ser o que se queira. O governo,
ao patrociná-lo, pode ter tido as piores intenções
(ou, como antes parece, simplesmente entrou numa fria).
Mas
o mencionado sindicalista tem um ponto: a discussão abortada
na mídia também silenciou o debate público
sobre a impotência do jornalista diante das determinações
interesseiras ou sem fundamento profissional do patrão
(ou, quando o patrão não parece ter nada com isso,
do editor que ordena que se baixem matérias na contramão
do que se apurou e checou – vide Veja e Ibsen Pinheiro).
O
discurso sobre ética e transparência no jornalismo
que não se voltar igualmente para essa realidade distante
das vistas do público – e não propor que
se tente encontrar remédios para ela – será
pouco mais do que uma abstração. [Texto fechado
às 17h08 de 16/8]
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