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- 17/08/2004
Antonio
Brasil
Como explicar uma idéia ao mesmo tempo estranha e distante
como o nosso polêmico CFJ para o público e para
os nossos colegas jornalistas americanos? Sinceramente, não
é tarefa fácil!
Esta
semana, fui convidado pelo programa On the Media da National
Public Radio, a rede de rádios públicas dos EUA
para discutir o CFJ. O gancho da matéria, obviamente,
era o artigo do correspondente do NYT, Larry Rohter e a resposta
do governo Lula. Aqui entre nós, isso já está
parecendo uma telenovela. Qual será o próximo
capítulo do Presidente versus o jornalista americano?
O
programa On the Media é uma espécie de Observatório
da Imprensa no rádio e trata todas as semanas de grandes
temas relacionados com a mídia. Apesar das dificuldades,
em meio a tantas “baixarias”, a rede de rádios
e TVs públicas americanas ainda é uma alternativa
de prestígio e qualidade.
O
programa On the Media (ver aqui)
não costuma abrir espaço para as mídias
internacionais. Mas os produtores e editores do programa estavam
muito curiosos para saber como os colegas brasileiros se sentiam
em relação à idéia de um conselho
de jornalistas patrocinado ou, pelo menos, apoiado pelo governo.
Por
aqui, o princípio de independência do jornalismo
em relação ao governo é considerado fundamental
e tem referências históricas. Trata-se de um princípio
básico do jornalismo como a objetividade, equilíbrio,
ou mesmo a busca da verdade. Todos sabemos que é quase
impossível, mas tentamos todos os dias.
O
jornalismo americano através da história tem uma
relação muito “delicada” com o governo.
Todos os governos. É só lembrar do caso Watergate
e a renúncia do presidente Nixon. Jornalista aqui deveria
ser sempre “watchdog”, ou cão de guarda do
governo. Mas os tempos mudaram e tem muito jornalista “lapdog”,
cãezinhos inofensivos de estimação.
A
independência da imprensa em relação às
intervenções, pelo menos às intervenções
diretas do governo, é considerada essencial para a prática
do jornalismo nos EUA.
Mas
o mesmo jornalismo americano não considera problemático
depender do grande capital. Trabalhar para grandes corporações
não seria um problema para os jornalistas. Mas sofrer
interferências ou trabalhar para o governo é considerado
“pecado mortal”. Quem trabalha para o governo ou
diretamente para empresas, aqui, não é considerado
jornalista.
Esses
mesmos colegas que exigem a separação entre o
jornalismo e o Estado aceitam que grandes corporações
como a General Electric ou a Disney possam controlar redes nacionais
de TV e empregar milhares de jornalistas. Nos EUA, independência
do governo é fundamental. Mas dependência do capital
é aceitável.
Creio
que esse foi o principal tema dessa longa explicação
e entrevista sobre o CFJ aqui nos EUA.
Tentei
explicar aos colegas americanos que a tal separação
ou distanciamento da imprensa em relação ao governo
como justificativa sagrada para a manutenção da
liberdade de imprensa e expressão é algo, no mínimo,
muito duvidoso.
Afinal,
o que seria pior? Uma dependência ou interferência
do governo ou uma dependência e interferência econômica
de grandes e poderosas corporações ou famílias
brasileiras que controlam a mídia jornalística?
O ideal, obviamente, seria trabalhar para o público,
mas nem todo o mundo tem o privilégio de ter uma rede
pública independente e poderosa como a BBC, por exemplo.
Para
os americanos, é difícil entender um cenário
de “capitanias hereditárias”. A história
americana é muito diferente da nossa. Difícil
traduzir conceitos entre culturas que se parecem tanto, mas
que na verdade, são tão diversas.
Aqui
nos EUA, os tempos do Cidadão Kane estão muito
distantes. Os novos e poderosos barões da mídia,
como o Rupert Murdoch, dono da rede Fox, por exemplo, respondem
a muitos acionistas, grandes e pequenos. No Brasil, nossos capitães
hereditários da mídia controlam grandes empresas
e não respondem a ninguém. Não respondem
sequer aos sindicatos, ao público e, muitas vezes, não
respondem sequer ao governo. Mas estão sempre preparados
para “negociar” soluções econômicas.
Caso contrario, dá-lhe jornalismo investigativo. No Brasil
é muito fácil apontar corrupção
em todos os lugares. É questão de poder e querer.
Insisto.
É difícil a vida de um correspondente internacional...
de verdade. Uma coisa é relatar o que acontece em algum
canto do mundo. Outra, é você tentar contextualizar
e explicar essas notícias para o seu público.
E ainda mais difícil, é tentar explicar o seu
próprio país para os colegas americanos.
Mas
procurei concluir o programa de forma positiva. O importante
é que estamos admitindo que tanto a mídia como
o jornalismo estão em crise e que precisamos “discutir”
e definir nossos objetivos. Com Conselho ou sem Conselho, temos
que repensar a nossa profissão. Corremos o risco de simplesmente
desaparecer ou ser considerados dispensáveis, sem qualquer
importância ou relevância para a sociedade.
O
programa On the Media vai ao ar nestes Sábado e Domingo
pela WNYC (ver horários no site) e estará disponível
online.
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