Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/09/2004
Alberto
Dines
Texto
apresentado à Audiência Pública
da Comissão de Educação do Senado
Federal, reunida às 10h de 15/9/2004, para discutir
o projeto de lei nº 3985/04, de autoria do Poder
Executivo, que "cria o Conselho Federal de Jornalismo
e os Conselhos Regionais de Jornalismo, e dá
outras providências". Atendendo a requerimento
do senador Helio Costa (PMDB-MG), o senador Osmar Dias
(PDT-PR), presidente da Comissão, convidou a
se manifestarem na audiência Sérgio Murillo
de Andrade (Fenaj), Maurício Azêdo (ABI),
Ricardo Kotscho (Presidência da República),
Carlos Alzugaray (Aner), Paulo Machado de Carvalho Neto
(Abert), Francisco Mesquita Neto (ANJ), Alberto Dines
(Observatório da Imprensa), Aloíso Lopes
(Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais) e Roberto
Buzato (Ordem dos Advogados do Brasil). Título
e intertítulos da redação do OI. |
Na
impossibilidade de estar em Brasília na manhã
do dia 15 de setembro de 2004 para participar da primeira Audiência
Pública destinada a discutir o projeto que cria o Conselho
Federal de Jornalismo (CFJ); mas, por outro lado, não
querendo ausentar-me desta histórica iniciativa, tomo
a liberdade de oferecer minha contribuição por
escrito.
Em
primeiro lugar, minhas congratulações aos dirigentes
desta Comissão pela presteza em iniciar o debate formal
em torno do projeto. Cinco semanas depois do seu envio ao Congresso
pela Presidência da República, e em seguida a uma
das mais acirradas disputas públicas na esfera da imprensa
e do jornalismo das últimas décadas – inclusive
com desdobramentos internacionais –, é chegada
a hora de discutir o mérito da questão.
Instalado
o debate no âmbito parlamentar, não significa que
estejam ultrapassadas ou devam ser esquecidas algumas questões
que dominaram a fase anterior. A primeira diz respeito à
legalidade de uma ação governamental para regulamentar
o exercício do jornalismo. A segunda relaciona-se com
a pretensão da Federação Nacional dos Jornalistas
em apresentar-se como legítima representante dos jornalistas
brasileiros. A terceira refere-se à validade de um texto
aprovado num Congresso Nacional de Jornalistas e posteriormente
reescrito pela Casa Civil da Presidência da República.
Estas
questões continuam pertinentes. Mais do que isso, são
vitais. Não podem deixar de ser cogitadas na discussão
dos méritos porque comprometem o projeto na sua essência.
E a sua essência é política. A proposta
de um Conselho Federal de Jornalismo não pode ser minimizada
e enquadrada apenas na esfera corporativa ou profissional. Trata-se
de uma questão institucional. Uma imprensa tutelada,
mesmo que de forma velada ou indireta, produz uma sociedade
tutelada. O sistema midiático é um espelho que
projeta formatos e conceitos em todas as direções.
Falta
de decoro
Ao
iniciar-se a tramitação parlamentar no âmbito
desta Comissão de Educação, Cultura, Ciência
e Tecnologia, Comunicação e Esporte não
podemos esquecer que a questão da constitucionalidade
da proposição do governo é liminar e deve
preceder às demais.
Evidentemente,
não é este o foro apropriado para examinar a compatibilidade
do projeto do CFJ com o espírito e a letra da Carta Magna
(o endereço certo seria a Comissão de Constituição
e Justiça). Mas se o texto como um todo apresenta-se
claramente inconstitucional, fica prejudicado o exame "técnico"
do seu mérito. Estamos, portanto, diante de uma peça
liminarmente incompetente, imprópria e, por isso, antidemocrática.
Esta
oposição ao projeto do CFJ não deve ser
vista como um atestado de boa conduta ou de qualificação
da imprensa e da comunicação social em nosso país.
Ao contrário. A cada dia que passa torna-se mais gritante
a necessidade de estabelecer algum tipo de regulamentação
ou monitoramento do sistema midiático – sobretudo
nas suas ramificações eletrônicas.
Como
qualquer poder, também a comunicação deve
estar sujeita a algum tipo de controle social. Hoje, isto é
ponto pacífico. Mesmo nos Estados Unidos, pátria
da livre iniciativa, a existência da Federal Communications
Comission (FCC) tornou-se inquestionável.
O
surto "denuncista" que precedeu a encampação
pelo governo do projeto do CFJ não pode ser desconsiderado.
É uma aberração que compromete o nosso
jornalismo há mais de uma década. Mas é
preciso que se diga que nesta aberração são
cúmplices os veículos jornalísticos irresponsáveis
que divulgam tais denúncias e, com eles, os parlamentares
irresponsáveis que os alimentam.
O
denuncismo é conseqüência direta dos vazamentos
de informações sigilosas de inquéritos
que tramitam no Congresso. Se falta decoro àqueles que
divulgam denúncias sem o apóio de investigações,
falta decoro aos que fornecem estas informações.
De nada adianta pretender um conserto na torneira se o cano
está visivelmente perfurado.
Sem
convergência
O
denuncismo e o sensacionalismo são a ponta de um iceberg
que começa com o baixo nível da programação
televisiva. Nossa mídia eletrônica necessita de
urgentes e corajosas inovações que dependem, antes
de tudo, de um Congresso isento, rigoroso e livre de conflitos
de interesses. Quando um representante do povo é ao mesmo
tempo concessionário de um serviço público
de rádio e televisão está inabilitado para
legislar com independência. Não será um
Conselho Federal de Jornalismo que conseguirá promover
a necessária diversidade informativa de que tanto carece
a nossa democracia.
A
discussão sobre a concentração e propriedade
cruzada dos meios de comunicação é urgente
e seu adiamento afeta não apenas qualidade da nossa mídia
mas também as possibilidades para o seu desenvolvimento.
Mas é impossível discutir esta questão
no âmbito parlamentar enquanto os parlamentares forem
parte interessada na manutenção do status
quo.
Depois
de uma década de postergações, em 2002
o Senado Federal finalmente colocou em funcionamento o Conselho
de Comunicação Social. É uma conquista,
um avanço. Mas é imperioso reconhecer que a regulamentação
deste Conselho, e os acordos para a escolha dos conselheiros,
o converteram num fórum de debates, espécie de
arena em miniatura para o confronto entre os dois blocos de
corporações, o profissional e o empresarial, cujos
interesses jamais serão convergentes. A sociedade civil
é sempre minoritária.
Não
é este o momento para identificar todas as disfunções
do nosso sistema mediático e suas graves conseqüências
em nosso desenvolvimento cultural. Uma coisa, porém,
é certa: a criação de um Conselho Federal
de Jornalismo não será a solução.
Ao contrário, será um agravamento irremediável.
Conselho
Federal de Jornalismo - O cerne da questão.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/09/2004
Fernando
Massote (*)
A
proposta do Conselho Federal de Jornalismo pode ter defeitos
de método – a maneira como foi apresentada com
tanta ênfase por parte do governo, provavelmente mais
por oportunismo do que propriamente por alguma intenção
de gerar instrumento de controle sobre os jornalistas ou sobre
a imprensa – e mesmo de essência. Estes limites
transparecem no intenso debate que está suscitando há
algumas semanas. É preciso continuar a discussão
até conseguir um produto suficientemente afinado com
os interesses da sociedade e da categoria dos jornalistas, de
forma que se supere a caótica situação
em que a imprensa atua de forma autocrática e agredindo
direitos, sem que a sociedade – nem mesmo por meio da
justiça – consiga colocar remédio algum
às suas injustiças.
Precisamos
despoluir os horizontes e reconhecer que a proposta tem um grande
mérito: suscitou um debate inédito sobre a imprensa
no país. Cumpre-nos refocalizar a discussão, impedindo
que seja sufocada pelos donos da mídia amedrontados por
qualquer leve brisa democrática. Eles intervêm
com as armas em punho, procurando impedir que seu mandonismo
desenfreado seja atingido. É verdade que o fazem com
instrumentos ultrapassados, do tempo da Guerra Fria. As reações
revelam o atraso mental e cultural desses senhores da mídia,
que não sabem pensar senão nos termos biliosos
e maniqueístas da grande guerra ideológica do
século 20. Eles foram, com efeito, buscar o "leninismo",
o "stalinismo" e o "castrismo" – os
espantalhos tradicionais da direita, do mesmo modo que os do
lado de lá respondiam com os espantalhos do "anti-sovietismo"
e do "anticomunismo" – como instrumentos do
diversionismo com que pretendem controlar o debate e, se possível,
bloqueá-lo o quanto antes, contra um movimento que pode
alargar-se e amadurecer com a participação dos
mais diversos setores da sociedade, cujos interesses são
freqüentemente adversados pelo caos e o absolutismo em
que se encontra o poder da grande mídia no país.
Isto
não deve, no entanto, obnubilar a nossa visão
do que está acontecendo. Precisamos separar – para
fins, bem entendido, de método – a forma do conteúdo
e entendê-los corretamente na articulação
que deles fazem as diversas partes implicadas no enfrentamento
da questão. É necessário, portanto, precaver-se
contra os erros de concepção e encaminhamento
de qualquer um dos lados da contenda.
Esforços
de esclarecimento
Do
lado conservador estão os mais orgânicos interesses,
visando limpar a pauta e aplastar o debate. Mas do lado dos
interesses mais legítimos e gerais podem estar, também,
os que arriscam a jogar fora a criança com a água
do banho. O pensamento de grande parte da esquerda, de forma
mais ou menos profunda, baseou-se no modelo dezenovista (século
19) – como o chamam os estudiosos europeus – da
ditadura do proletariado.
Para
esta concepção tratava-se de derrubar uma ditadura
(da burguesia) e implantar outra (do proletariado) pensada ipso
facto como democrática por estar apoiada –
no plano lógico, já que era uma hipótese
ainda não verificada historicamente – numa base
social muito mais ampla do que a do Estado liberal. Esta concepção
– linear e mecânica, já que tão profundamente
questionada pela experiência no decurso do século
20 – não é mais professada senão
por grupelhos relativamente insignificantes, ainda que atuantes.
Mas
o que é realmente preocupante é que ela não
foi superada por nenhuma outra e mantém a sua influência
de forma latente. Ela paira no ar – como uma "memória"
cultural, ativa, silenciosa – como a única de que
dispõem lideranças e grupos que dirigem hoje,
com o governo Lula, numerosos setores do aparelho de Estado.
Diz, com efeito, Antonio Gramsci que, "enquanto o novo
não nasce e o velho não morre se dá todo
tipo de aberração". É necessário,
portanto, que sejamos cuidadosos contra este velho que não
morreu também nas práticas da esquerda. Ele pode
ressuscitar sempre, de forma mais ou menos grave, aqui ou acolá.
Isto sem considerar as contaminações corporativas
do sindicalismo atrelado aos fundos de pensão, de que
nos fala Chico de Oliveira. Afinal, cabeça fria e aberta
às vibrações mais puras do coração
em consonância com as energias sociais e intelectuais
mais amplas, são sólidas condições
da sabedoria.
O
presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, Aloísio
Lopes, faz bem, portanto, em continuar os seus esforços
no sentido de esclarecer a proposta da Fenaj e incentivar o
seu debate. Seja procurando escutar e incorporar sugestões
provenientes dos interesses e setores mais legítimos
e amplos da sociedade, que combatendo as tentativas dos setores
conservadores e patrimoniais da mídia de criminalizar
política e ideologicamente o debate com a finalidade
de bloqueá-lo. Ele fez isto nos últimos dias enviando
uma carta educada e aberta ao jornal Estado de Minas
a propósito do que escreveu um dos seus diretores mais
antigos sobre a proposta em epígrafe.
Viés
coronelístico
A
resposta que recebeu, publicada pelo mesmo jornal no dia 4 de
setembro, prima, como assinalamos mais acima, pela quase absoluta
predominância, instrumental, da forma sobre o conteúdo.
Um parafraseado vazio de conteúdos propositivos, recheado
de lugares comuns, condimentado por preconceitos sociais traduzidos
por concepções reacionárias, de argumentos
de autoridade, de desconhecimento de cânones culturais
indispensáveis para o tratamento mais complexo e elevado
das questões sociais e políticas.
Para
esclarecer estes enunciados, aponto, como exemplo de uma intervenção
tipicamente desatinada, a insistência do querelante em
rebaixar e desqualificar o presidente do Sindicato pelos mais
diversos meios impertinentes. Um deles parece primar sobre os
demais, demonstrando a animosidade crescente do articulista
do Estado de Minas com a interpelação
– ainda que tão educada – do presidente do
sindicato.
Lançando
mão do vocativo, o articulista interpela o interlocutor
insistindo em considerá-lo, por pelo menos cinco vezes,
como o "atual e eventual presidente do SJPMG". A subjetividade
efervescente do articulista expressa uma linguagem mais caracterizada
pelo jargão do que pelo respeito aos significados vocabulares
convencionais. O significado de "eventual" se refere
ao "que depende de acontecimento incerto, casual, fortuito,
acidental" (vide Aurélio, 3ª impressão,
1999). Este significado não se aplica, portanto, ao presidente
do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Minas
Gerais.
É
notório que ninguém é presidente de uma
instituição registrada em cartório e dependendo
do consenso ativo de uma coletividade, por acaso, eventualmente.
Este é um cargo definido estatutariamente, como resultado
de uma eleição que se realiza também por
periodicidade expressa. Qual é, então, o significado
do apelativo senão uma interpelação diminutiva
da pessoa do presidente e da instituição que ele
representa?
E
por que esta admoestação ofensiva se o interlocutor,
sem lançar nenhuma invectiva em sua direção,
nada mais fez do que usar a linguagem de praxe, pedindo o direito
de resposta? Não há como não concordar
que esta não é uma resposta democrática
pelo seu anti-sindicalismo típico de uma direita obtusa,
de viés coronelístico. Isto evidencia também
o desacordo – deste posicionamento – com as regras
de comportamento mais corriqueiras de mentes educadas.
Não
é preciso, enfim, primar pela benevolência, a afabilidade
e a finura do trato para se conformar a estas regras embora
o tratamento elevado se integre perfeitamente com a natureza
das últimas. Basta que haja uma suspensão equilibrada
dos ânimos não deixando que as paixões mais
negativas predominem sobre os sentidos mais civilizados. O articulista
não é, por nada, afeito a esta capacidade.
Exageros
passadistas
Interpelações
deste tipo se multiplicam no texto do articulista do Estado
de Minas – misturando falta de finura do trato à
ranços autoritários, hipercorporativos da mídia
dominante. Diz ele, de fato: "Como não poderia deixar
de acontecer, o atual e eventual presidente do SJPMG faz uma
afirmativa digna de quem acaba de descobrir o segredo da roda".
Segue-se, então, o trecho com a "afirmativa"
incriminada:
"O
que os jornalistas brasileiros buscam, através
de decisões coletivas aprovadas em congressos
da categoria, é exatamente o mínimo de
controle sobre o exercício da profissão
dos jornalistas, profissão esta que vem sendo
precarizada e ameaçada de extinção
pelos donos da mídia, que pagam salários
aviltantes e não se preocupam com a formação
profissional e ética de seus profissionais, sem
contar com o nefasto atrelamento aos poderes econômicos
e políticos". |
Ora,
as palavras do presidente do Sindicato, reprisadas acima pelo
articulista, são expressões felizes, realmente
inspiradas, uma leitura crítica e sadia da realidade!
Onde está então "a descoberta da roda"?
Deseja, acaso, o articulista enfatizar a palavra "controle"
que consta do texto incriminado e que para ele tem um significado
unívoco, pré-determinado de maneira muito estreita,
já que assim lhe sugerem os seus horizontes ideológicos?
Se
for mesmo este o seu punto dolens, o diagnóstico
realizado pelo presidente do SJPMG atingiu o cerne da questão
e ficou comprovado. E a falta de qualidades elevadas do texto
do articulista do Estado de Minas fica compensada pela
maneira dramática e exemplar com que ele evidencia –
pelos exageros passadistas da sua prosa – a questão
da necessidade da disciplina democrática da mídia
como um dos nós mais urgentes a serem dissolvidos como
condição para o aperfeiçoamento democrático
do nosso país.
(*)
Doutor em Filosofia pela Universidade de Urbino (Itália)
e professor aposentado do Departamento de Ciência Política
da UFMG
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