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Informação:
Observatório
da Imprensa - 26/10/2004
Luiz
Weis
A
publicação de supostas fotos de Vladimir Herzog,
tiradas presumivelmente no DOI-Codi de São Paulo, no
Correio Braziliense de domingo, 17 de outubro – 29 anos
menos uma semana do seu assassínio –, abriu uma
crise entre o Exército e o Planalto e escancarou a relutância
do governo Lula em "revolver o passado" (como disse
o ministro da Defesa José Viegas, falando de sua "falta
de motivação" para tal).
Do
ângulo da produção jornalística,
mostrou as dificuldades da imprensa em levar ao público
um relato coerente sobre o que começou com um fato de
mídia, cuja razão de ser não poucos brasileiros
atribuíram a uma conspiração política
de sentido obscuro, perguntando-se: "Por que isso agora,
passado tanto tempo?" (No último sábado,
o blog de Ricardo Noblat colocou no ar um comentário
sobre a irritada reação de saturação
de um certo número de seus leitores.)
O
pecado original da cobertura diária – que tem muito
a ver com a inexistência de editorias de mídia
nos jornalões – foi não "repercutir",
com perdão da palavra, a matéria do Correio já
na segunda-feira, a começar pela checagem do que o matutino
descreveria, só na quinta, como o "garimpo da história":
a trajetória das fotos e de outras revelações
correlatas até a primeira página de sua edição
dominical.
Revelação
correlata e de parar as máquinas, pela qual a concorrência
passou batido ao longo da semana, foi a reprodução
de uma planilha do DOI-Codi que registra o entra-e-sai de presos
ali até setembro de 1975 – contabilizando, burocraticamente,
a morte de 50 presos (47 capturados pelo DOI e 3 por outros
órgãos). No relatório de outubro, a conta
chegaria a 51, com Vladimir Herzog.
Na
segunda-feira, O Estado de S.Paulo reproduziu uma das fotos
do Correio com um texto-legenda. A Folha ignorou o assunto.
Na
terça, o que comandava o noticiário eram a nota
do Exército justificando o suplício do jornalista
– como que transmitida através do tempo diretamente
das centrais do terrorismo de Estado sob o qual o Brasil vivia
quando ele foi "suicidado" (o 38º nos porões
da repressão) – e a conseqüente indignação
do presidente Lula.
Entrevista
extraordinária
A
partir daí, os diários seriam mobilizados principalmente
pela retratação exigida por Lula; pela afirmação
taxativa do secretário nacional de Direitos Humanos,
Nilmário Miranda, com base em parecer da Agência
Brasileira de Inteligência (Abin), de que o retratado
não era Herzog; e pela caça àquele que
os informantes do reportariado na Abin e na CNBB prontamente
identificaram como o padre canadense Leopoldo (ou Léopold,
conforme o jornal que se lesse) D’Astous (ou B’Astour,
como chegou a sair na internet).
Antes
disso, sintomaticamente talvez, um jornalista ouviu de um ex-agente
do Cenimar a inverossímil versão de que o fotografado
era o padre Alípio de Freitas, que hoje vive em Portugal.
Localizado, o corpulento Alípio desmentiu de imediato
a história, pela qual, dias depois, a fonte se desculparia.
Ficou
claro que pelo menos uma parte do noticiário se empenhou
em mostrar que não passava de barriga o que o Correio
vendera como furo – embora este tivesse sido autorizado
a bancar que a vítima era Herzog por ninguém menos
do que a viúva Clarice.
No
sábado, depois de ver as fotos recebidas por e-mail,
ela ligou para o jornal e disse: "É ele". Clarice
continuaria a dizer isso dia após dia, pelo menos em
relação à foto do homem nu, de frente,
usando relógio no pulso direito, e tornou a manifestar
a sua convicção na entrevista extraordinária
– em todos os sentidos que se queira – feita com
ela pela repórter Laura Greenhalgh. Incluíndo
uma soberba foto de autoria de Nilton Fukuda, a entrevista ocupou
9 colunas do caderno "Aliás," do Estadão
de domingo passado.
(Ao
lado da entrevista, o jornal publica um detalhado depoimento
do rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita
Paulista. Sempre se teve por fato que ele conseguiu ver o corpo
maltratado de Vladimir Herzog, antes da lavagem ritual, além
de ordenar que não fosse enterrado na ala dos suicidas.
Tanto que o box remissivo da Folha de terça-feira sobre
a morte de Vlado cita o religioso como tendo dito: "Vi
o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele
tinha sido torturado e assassinado". Mas, no Estado, Sobel
escreve que estava no Rio quando recebeu a notícia de
sua morte e não conseguiu voltar a tempo de ir ao enterro.
Depois de sucessivas conversas telefônicas com os encarregados
de preparar e sepultar o cadáver, "diante de algo
que não vi, mas de que jamais duvidei, tomei a decisão
de ignorar o laudo oficial que falava em suicídio".)
O
jornalista Paulo Markun, o outro destinatário dos e-mails
do Correio, estranhou as fotos, mas admitiu que podiam ser de
Vlado. Este jornalista, ao vê-las impressas, teve a certeza
de que era ele na foto do relógio. Mantém essa
opinião, apesar das legítimas dúvidas levantadas,
entre outros, pelo irmão de Laura, o ex-advogado de presos
políticos e deputado Luiz Eduardo Greenhalgh.
Ipsa
humana natura
O
fato é que os jornais aceitaram de modo geral a versão
de que o retratado era – sempre – o padre. E, não
com todas as letras, deram a entender que os repórteres
do Correio, de posse das fotos, foram com muita sede ao pote,
tratando antes de comprová-las do que de conferi-las.
Se
fizeram isso, como é possível, apenas adotaram
o procedimento-padrão nessas circunstâncias da
esmagadora maioria de seus colegas, presentes e passados, de
qualquer órgão de imprensa, no mundo inteiro,
movidos, em última análise, pela ipsa humana natura.
Não justifica, mas explica.
De
qualquer forma, no sábado, 23, já se sabia que:
1) as duas fotos do homem sozinho, de frente e de perfil, são
mais recentes do que a outra em que aparece também a
freira, ou "leiga consagrada", Terezinha de Sales
e que foi tirada em 1973 (e não em 1974, segundo a nota
do secretário Nilmário Miranda); e 2) o padre
revelara (à Folha) que o seu rosto "aparecia"
inteiro em todas as fotos que os seus agressores fizeram na
cabana em Caldas Novas, Goiás, onde ele e Terezinha foram
espancados e aviltados.
Ainda
assim, no domingo, o ombudsman da mesma Folha, Marcelo Beraba,
criticaria o Correio por ter publicado as fotos que ninguém
mais tinha, amparado apenas no aval de Clarice a uma delas.
"O mais prudente", segundo Beraba, "teria sido
submeter o material a testes e perícias", além
de "tentar obter mais informações nos bastidores
do governo e nas áreas militar e de inteligência".
É um bom argumento – em tese.
Ficou
famosa a britânica resposta de Sir Edmund Hillary, o primeiro
a escalar o monte Everest, quando lhe perguntaram por que se
aventurara a fazê-lo: "Porque o monte estava lá".
Mal comparando, foi o que o Correio fez, correndo o risco de
buscar o Prêmio Esso e acabar com o Prêmio Ignóbil.
O
essencial é que, tudo considerado, mais acertou do que
errou – mesmo que nenhuma das fotos seja de Herzog. Porque
lembrou os brasileiros de uma verdade histórica e, como
sacou na hora o repórter-fotográfico paulista
Luiz Carlos Kfouri, os alertou sem querer para uma verdade presente.
A
verdade histórica é a das barbaridades que a ditadura
cometia com os seus inimigos reais ou imaginários, sejam
eles Vladimir Herzog, Léopold D’Astous ou qualquer
das centenas de seus mortos ou dos milhares de seus torturados.
Areia
demais
Ah,
dir-se-á – e este jornalista o ouviu de mais de
uma voz –, disso todo mundo já sabia. Falso. Inumeráveis
jovens, até universitários, até filhos
de intelectuais, sabem pouco, muito pouco ou coisa nenhuma dos
horrores que o Brasil suportou entre 1964 e 1984.
Não
fosse o filme Olga, é o caso de acrescentar, as novas
gerações continuariam ignorando também
as monstruosidades do Estado Novo de Vargas.
Melhor
a mídia que "revolve o passado", errando no
varejo, do que aquela que lhe dá as costas, alegando
que o que passou passou.
O
que conduz ao segundo e involuntário acerto do Correio:
provocar no Exército a reação troglodita
que fez ver ao país quanto entulho autoritário
ainda sobrevive e se reproduz na instituição militar,
quase 20 anos depois de o último e façanhudo general
da ditadura deixar o Palácio do Planalto pela porta dos
fundos.
Tudo
isso – as fotos, as notas e a queda-de-braço que
tornou a emergir entre os que dizem que anistia é esquecimento
e os que dizem que anistia é impunidade pactuada ou consensual
– se revelou areia demais para o caminhãozinho
da imprensa diária, compelida a ir atrás do urgente,
como é inevitável, e sem meios ou "vontade
jornalística" de buscar ao mesmo tempo o importante
(aquilo que ficará, na frase clássica, como o
primeiro rascunho da história).
Era
de esperar, portanto, que as semanais voltassem a fazer o que
tantas vezes já fizeram – e para o que nasceram,
desde a primeira delas, a Time, nos anos 1920: separar o que
é notícia do que é ruído (conforme
um antigo slogan da mesma revista) e dar ao leitor, na segunda
seguinte ou na véspera, um panorama o quanto possível
consistente e enriquecido de dados novos do que vale a pena
reter do turbilhão dos 7 dias anteriores.
Oportunidade
desperdiçada
Mas
o que a Época, a Veja e a IstoÉ – do pior
para o menos pior – deram da mais recente erupção
do inesgotável caso Herzog foi um vexame técnico
e ético. Pela platitude e completa ausência de
perspectiva dos seus parcos textos e pela atitude sarcástica,
beirando o deboche, com que trataram do assunto.
Na
Época, que matou o Vlado e seus novos desdobramentos
em duas notas, uma delas intitulada "Mico da semana".
Na Veja, a matéria que reduz os acontecimentos a pó
de traque, com a frase "nada era o que parecia ser",
recebeu o título "O pastelão da semana".
As
fortes críticas à primeira nota do Exército
e a confirmação de que o comandante da Arma, general
Francisco Albuquerque, ao contrário da versão
oficial, leu e aprovou o texto de apologia à ditadura,
e de que Lula tinha a intenção de demiti-lo, bem
como ao ministro Viegas, não absolvem a Veja da oportunidade
desperdiçada de garimpar uma senhora matéria –
um "tudo sobre", no jargão das redações
– como se esforçava para fazer numa situação
dessas em tempos idos e esquecidos.
Mesmo
o trabalho mais extenso e que menos deixa a desejar, de autoria
de Luiz Cláudio Cunha, da IstoÉ, trouxe o título
depreciativo "Trapalhadas históricas".
O
artigo, embora tenha comprado por inteiro a versão da
Abin de que Vlado não está em nenhuma das fotos
infamantes, avança na descrição dos bastidores
da segunda nota e introduz um novo personagem na história
(além do "aparentemente desinformado" Albuquerque
e do chefe do Centro de Comunicação Social do
Exército, general Antonio Gabriel Esper, de quem os jornais
já se tinham ocupado): o chefe do Estado-Maior da Força,
Antonio Apparício Ignácio Domingues, recém-indicado
por Lula para o Superior Tribunal Militar, dependendo de confirmação
do Senado.
Domingues,
"definido pelos colegas como ‘um dinossauro da linha-dura’",
informa o texto, teria sido o responsável pelo tom da
primeira nota "que atropelou Albuquerque" (o que não
é verdade) e "espantou o país".
Com
mais tempo para apurar, os semanários poderiam ter lançado
alguma luz sobre diversos problemas importantes nos quais os
diários tropeçaram, ou criaram, ou ignoraram,
ou abordaram de forma insatisfatória.
Três
outras fotos
Começando
pelo fim. Em um trecho de sua coluna, o ombudsman Marcelo Beraba
escreveu:
"Segundo
o diretor de Redação do ‘Correio’,
Josemar Gimenez, Clarice pediu a vários amigos
comuns que o jornal evitasse publicar fotos que mostrassem
Herzog sendo torturado. Havia a informação
de que o ‘Correio’ tinha mais fotos além
das que publicou. "Disse que não tínhamos
mais fotos e, se tivéssemos, não publicaríamos.
Não daria fotos muito chocantes, mas mostrar
a foto do Herzog preso e humilhado nos porões
da ditadura, reconhecido pela Clarice, é importante
e inédito, o que dá a grandeza da informação.
E acho muito importante poder contar a história
política do país." |
Até
onde sabe este leitor, o que se pediu a Josemar foi que, para
poupar Clarice e os filhos de Vlado, o Correio deixasse de publicar
não fotos dele "sendo torturado", mas três
em que, salvo um enorme mal-entendido, ele aparece morto –
de cuja existência e detalhes se soube a partir do próprio
Correio. Ele concordou.
Mas
a sua resposta transcrita por Beraba deixa margem a dúvidas
na passagem "…se tivéssemos, não publicaríamos.
Não daria fotos muito chocantes…"
Na
relação publicada domingo pelo Correio dos "47
documentos selecionados no lote entregue [pelo cabo reformado
e antigo araponga] José Alves Firmino" à
Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados
ou "entregues diretamente ao Correio", o item 31 é
descrito como "fotos de um homem nu e humilhado no DOI-Codi
de São Paulo, a quem Clarice Herzog aponta como seu marido,
Vladimir Herzog". Ou seja, dele vivo.
A
importância da questão é óbvia: se
o Correio tem fotos de Vlado morto, do mesmo grupo de documentos
procedente de Firmino, como se interpretou, seria a prova de
que o jornalista é quem aparece pelo menos na foto aceita
por Clarice e de que o ex-cabo ou a pessoa não identificada
que passou o material examinado pelo repórter Rudolfo
Lago misturou Herzog e D’Astous em um único lote.
Protegendo
o Exército
Adiante.
Na sexta e no sábado, a Folha e o Correio publicaram
duas matérias que praticamente imploram por "maiores
detalhes".
A
primeira, de Iuri Dantas e Fernanda Krakovics, sustenta que
setores de Inteligência do Exército "possuem
cópias do relatório que investigou o padre (…).
O problema é que, se o Exército disser que as
fotos não mostram o jornalista, e sim o padre, estará
admitindo que ainda hoje guarda arquivos sobre a repressão
política no regime militar".
Isso
bate com o que o "agente Marcos", o cabo reformado
José Alves Firmino, teria dito ao Correio dois antes:
tudo foi microfilmado e tem endereço certo, o Centro
de Inteligência do Exército.
Já
o repórter Luiz Carlos Azedo escreveu no Correio que
a versão da Abin sobre a identidade do homem das fotos
"foi produzida mais para confundir do que para explicar".
Segundo ele, "a comunidade de informações
exigiu a contestação de que as fotos eram do jornalista".
E mais: a nota, preparada pelo general Jorge Armando Felix,
ministro de Segurança Institucional e seu colega da Casa
Civil, José Dirceu, teria sido "assumida pela Abin
para não expor ainda mais o Exército".
Nenhuma
das matérias dá ao menos uma pista das fontes
em que se baseiam. A primeira do gênero, de Tânia
Monteiro, no Estado de quinta-feira, pelo menos cita "militares
de alta patente da ativa e da reserva" para os quais o
episódio "enfraqueceu o comandante do Exército".
É significativo o comentário de um militar sobre
a segunda nota: "O remendo ficou pior do que o soneto".
Em
todo caso, quem prestou o melhor serviço ao leitor nesse
departamento foi o colunista da Folha Josias de Souza, com a
sua matéria "Exército diz que queimou arquivos,
mas não prova". Josias informa ter tido acesso a
textos sigilosos que autorizam dizer que "a história
da repressão política pós-64 permanece
guardada nos cofres das Forças Armadas".
Pé
ante pé
Outra
grossa questão em aberto é a do material levado
por Firmino à Comissão de Direitos Humanos, em
1997. À época, como oportunamente lembrou Marinilda
Carvalho na edição anterior deste Observatório,
os jornais extraíram dali o mais quente: as evidências
de que, mesmo em junho de 1995, dez anos e cinco meses depois
do restabelecimento do governo civil no país, o Exército
ainda fazia espionagem política, arapongando, por exemplo,
um encontro petista em Vitória, com a presença
do futuro presidente Lula.
E
ponto, parágrafo. Isto feito, a imprensa como que saiu
pé ante pé do recinto onde estava o papelório
trazido pelo agente arrependido para não perturbar o
seu repouso – que se transformou em sono profundo de longos
sete anos.
"As
caixas continuariam esquecidas", revelou Marinilda, "se
o jornalista Davi Emerich, assessor de imprensa do deputado
Roberto Freire, presidente do PPS, que conhecia seu conteúdo
e andava inconformado com a desimportância atribuída
à papelada, não atraísse à pesquisa
o repórter Eumano Silva, licenciado do Correio Braziliense
para escrever um livro sobre a guerrilha do Araguaia".
Agora,
os jornalistas pelo menos poderiam contar com começo,
meio e fim a história do escandaloso descaso com que
parlamentares de uma comissão de direitos humanos (!),
um ministro da Justiça ligado à Igreja e um presidente
da República que certa vez foi levado a conhecer as amenidades
do "Tutóia Hilton" trataram os documentos a
que tiveram acesso.
Com
a mesma frieza, a imprensa registrou a patranha difundida pelo
atual presidente da Comissão, deputado Mário Heringer,
do PDT mineiro, de que tudo tinha ido parar no Centro de Documentação
da Universidade de Brasília.
Salvo
engano, só o Correio foi checar a história com
o diretor do centro, que desmentiu a versão. O jornal
cumpriu a obrigação de registrar, no pé
da materiola, que "segundo assessores, Heringer se confundiu
ao dizer que os originais tinham sido enviados à UnB".
Que
general, que jornal?
Já
as entrevistas que toda a grande imprensa fez com Firmino, além
de evidenciar os sintomas persecutórios do entrevistado
– embora a ele pareça aplicar-se o dito de que
até os paranóicos têm inimigos de verdade
– ficaram longe de render o que poderiam.
À
Folha ele se refere ao comentário de um general sobre
a fala de Lula, em um espionado evento petista em 1993. Que
general é esse ele não disse nem lhe foi perguntado.
No
mesmo pingue-pongue, Firmino conta que agia disfarçado
de repórter de um jornal de Marabá, no Pará,
cujo nome ele disse não recordar, "ligado aos órgãos
de informação, se não for do próprio
Exército". Não seria tarefa sobre-humana
a Folha dar uma rasante sobre a imprensa da cidade para identificar
o jornal-araponga, se é que ainda existe.
Ao
Estado, Firmino disse que em 1997 o seu chefe era o major Alberto
Forrer Garcia. Hoje coronel, esclarece o texto, Forrer "trabalha
na Subseção de Operações do Exército
e é cotado para ser promovido a general". Não
há indício de que o jornal tenha tentado falar
com o oficial.
Mais
de uma semana depois que o Correio começou a publicar
a série "Arquivos da repressão", a questão
central tornou-se a abertura, ou não, dos arquivos da
repressão.
O
Estado de segunda-feira revela que, numa festa, Lula disse aos
chefes militares que para ele "não tem problema"
manter trancados os documentos do regime. No mesmo dia, o ministro
da Defesa, José ("não tenho motivação")
Viegas, diz na Folha que "alguma mudança será
necessária" na lei que impede o país de conhecer
tais documentos.
Quem
tornou a barreira intransponível, como a imprensa não
deixou de registrar, foi o presidente Fernando Henrique. Quatro
dias antes de se despedir do Planalto ele assinou o decreto
4.553, que ampliou a duração do sigilo dos documentos
carimbados como reservados, confidenciais, secretos e ultra-secretos.
Não
se sabe segundo quais critérios objetivos uma autoridade
pode trancar um documento nessas categorias ou se pode "promovê-lo"
de uma a outra. O que se sabe é que os ultra-secretos
não podem ser divulgados antes de 50 anos, prorrogáveis
por toda a eternidade.
"Clamor
pela verdade"
No
sábado o colunista da Folha Fernando Rodrigues lembrou
que "com uma canetada, o presidente pode revogar ou alterar"
o infeliz decreto de FHC. Lembrou que os Estados Unidos tem,
desde 1966, um "Freedom of Information Act", graças
ao qual mais de 2 milhões de papéis federais são
liberados todo ano do país a pedido de interessados.
O
tom predominante na mídia a esse respeito – que
a levou aos seus melhores momentos ao longo da semana –
foi dado pelo título "Clamor pela verdade"
do Correio, em reportagem com entidades e figuras públicas
que cobram, "sobretudo da Abin", a divulgação
de documentos sobre a ditadura.
Nos
artigos, quem atirou primeiro foi a colunista Teresa Cruvinel,
do Globo, quando, na quarta-feira, acusou o governo de "cultuar
o silêncio sobre os crimes da ditadura". Enquanto
isso, no Estado, o veterano Flávio Tavares lembrava "o
exemplo dos militares argentinos", reconstituindo o processo
de sinceramiento iniciado em 1995 com o mea-culpa do então
comandante do Exército, general Martín Balza,
numa entrevista televisada.
Dois
dias depois, também no Globo, Miriam Leitão, em
um dos textos mais contundentes sobre as notas do Exército
– como os de Clóvis Rossi, na Folha, e de Roberto
Pompeu de Toledo, na Veja – vergastou o regime civil porque,
"por falta de coragem, não fez o indispensável
para que o país tivesse um novo começo: requisitar
as informações, desmontar o aparelho de espionagem
montado na ditadura, assumir o controle, em nome do povo brasileiro,
dos arquivos da nossa história".
Eis
aí a essência do que Teresa Cruvinel considera
as lições do episódio – "inclusive
para o jornalismo empenhado em resgatar o passado que o atual
governo e os que o antecederam preferem não remexer por
razões que agora ficaram claras".
Por
isso mesmo, esse empenho não pode arrefecer.
[Texto
fechado às 14h20 de 25/10]
Hora
da verdade. Toda a verdade.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 26/10/2004
Alberto
Dines
O
caso começou sob suspeição e uma semana
depois está ainda mais turvo e dúbio. Apesar das
duas notas emitidas pelo comando do Exército, e de uma
terceira pelo ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos
com base nas investigações da Agência Brasileira
de Inteligência (Abin), estamos em meio a um formidável
emaranhado de dúvidas.
Exatos
29 anos depois da divulgação da notícia
de que o jornalista Vladimir Herzog suicidara-se nos cárceres
do DOI-Codi de São Paulo, e da constatação
imediata de que fora assassinado durante um interrogatório,
continuamos envolvidos pelo velho clima de imposturas, farsas
e pusilanimidade.
Ao
reagir com tanto rancor à publicação pelo
Correio Braziliense das fotos daquele homem nu e humilhado sem
contestar que fosse Herzog, o comandante do Exército
não apenas confirmou a manutenção do clima
dos anos 1970 que produziu tantas barbaridades como avalizou
a identidade do jornalista. Errou pelo menos duas vezes e ambas
por conta da emoção. Antes de assinar aqueles
disparates retirados das cartilhas da Guerra Fria, um general
de quatro estrelas deveria, ao menos, mandar investigar a autenticidade
da matéria e a identidade do preso fotografado.
Sua
retratação, dois dias depois, longe de encerrar
o assunto como desejava o ministro da Defesa, só aumentou
a confusão ao lamentar a morte de Herzog (citado nominalmente).
Também sem investigar, confirmou que se tratava do jornalista.
Errou pelo menos uma vez e novamente premido pela emoção
– o medo de ser exonerado.
Afirmação
categórica
Dia
seguinte, a reviravolta promovida pela agência de inteligência
subordinada à presidência da República:
aquele homem não era Herzog antes de morrer, mas um outro
preso, igualmente despido e humilhado, talvez um sacerdote católico,
canadense, felizmente vivo.
No
último fim de semana outra guinada com base nas afirmações
de Clarice Herzog, viúva do jornalista: algumas das fotos
publicadas eram do seu marido, as demais, de outra pessoa. Significa
que às trapalhadas militares juntaram-se as trapalhadas
civis, desta vez na área dos Direitos Humanos, ambas
produzidas pela pressa de sepultar o caso.
Se
estivéssemos em guerra e nossas forças armadas
necessitassem de informações precisas sobre o
adversário estaríamos literalmente ferrados. Mas
como estamos apenas diante de uma crise política, permitem-se
tais deslizes e vexames.
As
vacilações, as bravatas e os panos quentes que
se filtram desta semana dominada pela incompetência mostram
que a ferida continua aberta, sangra e, para ser cicatrizada,
exige um tratamento de choque: a verdade. Toda a verdade.
O
presidente da República demonstrou que não lhe
falta energia para impor ao Exército um comportamento
compatível com os desejos da sociedade ao exigir nova
nota oficial do comando da Arma. Em compensação,
os atropelos e o vai-e-vem dos últimos dias desvendam
que a busca da verdade, além de firmeza, exige um mínimo
de eficácia e o máximo de transparência.
Se
a Abin afirmou tão categoricamente que o prisioneiro
não era Herzog obriga-se agora a oferecer as provas que
a levaram àquela constatação. Se não
tem provas, mentiu. Se as esconde, está enganando o povo
brasileiro. Se não mentiu, nem escondeu, é rigorosamente
inepta.
Outras
interrogações
Agora
é impossível tergiversar. A cautela pedida pelo
presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo
Cunha, não se justifica. É imprópria diante
da avalanche de desencontradas manifestações dos
últimos dias. O clima confuso só tende a agravar-se
e, se persistir, deverá contaminar outras áreas.
Inclusive a credibilidade do governo às vésperas
de uma eleição crucial.
Não
se pretende uma "varredura" nos atos dos órgãos
de repressão do regime militar como teme o presidente
do STJ, Edison Vidigal. Se Herzog é ou não o fotografado
converteu-se em questão secundária. Mas é
de capital importância entender os motivos da publicação
pelo Correio Braziliense, 29 anos depois, das fotos daquele
homem nu e destruído.
É,
no mínimo, ingênua a hipótese de casualidade
ou de vingança de um ex-agente da repressão que
as cedeu ou vendeu ao jornal. Se as fotos estavam com o ex-cabo
do Exército desde 1997, por que só agora, sete
anos depois, resolveu divulgá-las ?
Quem
lhe passou a informação de que aquele homem era
o jornalista? E não sendo Vladimir Herzog quem estaria
interessado em armar tamanha confusão a partir de um
nome que se tornou emblemático da luta contra a repressão?
Por que agora e não antes?
Cada
pergunta não respondida ou respondida de forma insatisfatória
aciona uma cadeia de outras interrogações. O que
agora está evidente é que a história toda
está mal contada. E para contá-la será
preciso retomar o Caso Herzog desde o início.
Oito
horas depois
Para
começar: não está claro por que foi anunciada
com relativo espalhafato a diligência contra o grupo de
jornalistas entre os quais alguns da equipe da TV Cultura na
sexta-feira, 24 de outubro de 1975. Uma "operação"
desta natureza naqueles tempos costumava ser secreta, clandestina
ou, ao menos, discreta. Neste caso foi exibida, trombeteada.
Algumas
semanas antes, o jornalista Cláudio Marques, do Shopping
News de São Paulo, em sua "Coluna Um", já
avisava numa mistura de ironias com ameaças que os jornalistas
da TV Cultura seriam em breve convidados a hospedar-se nas instalações
do DOI-Codi na rua Totóia. Cláudio Marques citava
nomes, inclusive o de Herzog. Também
tentava envolver o então secretário de Cultura
do Estado, José Mindlin.
Preocupado
com as ameaças, Herzog pediu a amigos comuns que solicitasse
a este Observador, então responsável pela coluna
"Jornal do Jornais" (Folha de S.Paulo, pág.
6, aos domingos) para desmascarar o agente da repressão
disfarçado em jornalista. A denúncia contra Cláudio
Marques foi publicada sob o título "Caça
às bruxas" sem citar os nomes dos jornalistas ameaçados
(12 de outubro, duas semanas antes de consumada a prisão
de Herzog). No intervalo Cláudio Marques continuou seus
ataques [veja abaixo a íntegra da nota].
Chama
a atenção também o fato de os agentes que
foram prender Herzog na sexta-feira à noite terem aceito
o seu compromisso de comparecer ao DOI-Codi no sábado,
às 8 horas da manhã. Uma operação
contra "perigosos elementos subversivos" não
poderia ser conduzida de forma tão branda e "civilizada".
A
jornalista Marinilda Carvalho, editora-assistente deste Observatório,
então presa e torturada em Brasília, revelou a
insistência com que seus torturadores perguntavam pelos
"f.d.p. comunistas da TV Cultura" que ela sequer conhecia
[leia "Objetivo da prisão de Herzog era atingir
o governador Paulo Egydio", na rubrica Entre Aspas desta
edição].
Herzog
apresentou-se no DOI-Codi conforme prometeu. Oito horas depois
estava morto. Naqueles dias cerca de 90 jornalistas haviam sido
presos e muitos estavam sendo barbaramente espancados.
Muitos
destes jornalistas tinham nomes estrangeiros (Galé, Konder,
Markun, Weis). Destes "estrangeiros" só um
foi assassinado.
JORNAL DOS JORNAIS
Caça às bruxas
Nota
publicada na coluna "Jornal do Jornais" (Folha
de S.Paulo, 12/10/1975, pág. 6), treze semanas
antes da prisão e morte de Vladimir Herzog. |
Fazer
a crítica à imprensa considerando os aspectos
puramente profissionais e objetivos é uma necessidade.
Faz parte da maturação do processo jornalístico
e deve ser praticada por todos. Mas abandonar problemas concretos
de qualidade e ética e incorporar-se ao grupo de denunciadores
da infiltração ideológica nos meios de
comunicação é, no mínimo, uma traição
à sua própria classe hoje amordaçada, pagando
por erros que não cometeu.
É
o caso de dois jornalistas, um de São Paulo, outro do
Rio, que desencadearam ultimamente uma ofensiva política.
Aqui [São Paulo], trata-se de Cláudio Marques,
colunista do Shopping News (Coluna Um, pág. 2) que há
três domingos vem insistindo contra o Departamento de
Jornalismo da TV Cultura, apelidada pelo colunista de TV-Vietcultura.
A campanha tentou macular a própria figura do Secretário
[da Cultura do Estado de São Paulo], José Mindlin.
No
Rio, trata-se de Adirson de Barros, colunista da Última
Hora que não apenas denuncia a "infiltração
vermelha" na imprensa brasileira como, inclusive, cita
casos do próprio jornal.
O
choque e a ignomínia.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 26/10/2004
Muniz
Sodré (*)
A
história é contada por Fernando Sabino (1923-2004).
A viúva do poeta Augusto Frederico Schmidt havia procurado
um centro espírita com a intenção de obter
do falecido o paradeiro de alguns papéis importantes.
Em vez dele, apareceu o Jaime Ovalle (também poeta, músico),
que se limitou a declarar: "Aqui, estamos todos nus".
Não
é uma história triste, tem mesmo algo de bem-humorado,
afim ao espírito narrativo de Sabino, mas ainda assim
pode ser associada ao horror da foto-choque de Vladimir Herzog
encarcerado e nu, publicada nos jornais. É que nós,
os pósteros, sabemos que a nudez de Vlado (assim o conhecíamos)
era, naquele instante, o prenúncio da morte brutal que
se seguiria.
Por
que uma foto-choque? A expressão vem de um texto de Roland
Barthes, uma de suas "mitologias", glosa de um comentário
de Geneviève Serreau sobre a fotografia de Paris-Match
em que se via uma cena de execução de comunistas
guatemaltecos:
"Esta
fotografia não é de modo nenhum terrível
em si mesma, o horror provém do fato de que nós
a olhamos de dentro de nossa liberdade".
|
Barthes
se detém aí sobre as imagens em que o fato surpreendido
explode em sua literalidade, "na própria evidência
de sua natureza obtusa", porque o
natural delas...
"...obriga
o espectador a uma interrogação violenta,
compromete-o num julgamento que ele mesmo elabora sem
ser incomodado pela presença demiúrgica
do fotógrafo (...) A fotografia literal introduz
ao escândalo do horror, não ao próprio
horror". |
Subjaz
à análise do intelectual francês a diferença
entre a estilização fotográfica da experiência
(freqüente nas cenas posadas, em que fica evidente aquela
"presença demiúrgica do fotógrafo")
e a literalidade dos flagrantes, a partir da qual se constrói
mais fortemente o juízo político.
O
fato e a foto
A
publicação da foto de Vladimir Herzog agrega valor
ao caráter político do jornalismo escrito. Mais
do que em qualquer outro meio de comunicação,
a foto ignominiosa na imprensa retarda o olhar do leitor, arranca-o
da fugacidade das imagens televisivas ou do passeio frenético
por janelas virtuais e outdoors, num julgamento destinado a
viver mais tempo que a edição do jornal.
Definitivamente
inscrita na retina de um leitor que agora pode olhar o horror
de dentro de um relativo espaço de liberdade civil, a
foto-choque levanta questões radicais: como se tornou
possível aquele tipo de horror? A gente capaz daquilo
é a mesma que reconhecemos como socius nacional? O Estado
de Direito brasileiro já tem alguma coisa de aceitável
a dizer sobre a ignomínia?
Aparentemente
poucas, estas questões redimem, entretanto, o jornalismo
do destino de vitrine de butique a que às vezes parece
condenado. Por um momento, nada do desfile de celebridades,
nada do último gadget do consumo eletrônico, nada
do fisiologismo cínico dos partidos, mas uma interrogação
verdadeiramente política, que explode na nudez de uma
foto.
É
algo análogo ao que sente Tereza, personagem de Milan
Kundera (em A insustentável leveza do ser), para quem,
desde a infância, "a nudez era o signo do uniforme
obrigatório dos campos de concentração".
Um claro sentimento de terror, já que essa nudez era
o prenúncio de uma morte indiferenciada para todas as
que aleatoriamente se encontrassem na fila das mulheres nuas.
A nudez em massa equivalia à morte hedionda, e isso sempre
foi o motor do choque nas fotografias de Auschwitz. Entre elas
e a foto da nudez de Vlado, estende-se o fio da ignomínia.
É,
assim, ao escândalo do horror que nos introduz a fotografia
de Vladimir Herzog encarcerado e nu. Não é possível
olhá-la de dentro do espaço íntimo de cada
um de nós sem imaginar, a partir da contração
dos músculos do corpo e do rosto que se furtava à
câmara, a solidão e o terror que atravessavam a
consciência daquele homem de paz submetido ao inclassificável.
Um
texto de Elias Canetti (em Massa e poder) traz alguma ajuda:
"De
noite, às escuras, o terror perante um contato
inesperado pode chegar a converter-se em pânico.
Nem sequer a roupa lhe dá suficiente segurança:
como é fácil arrancá-la, como é
fácil penetrar até a carne nua, retesada
e indefesa do agredido". |
Mas
definitivo mesmo é o fato jornalístico da foto
publicada; é a evidência de sua natureza obtusa.
(*)
Jornalista, professor titular da Universidade Federal do Rio
de Janeiro
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