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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/02/2005
Luiz
Carlos Santana (*)
A
eleição de Severino Cavalcanti para presidente
da Câmara dos Deputados revelou que a cobertura política
precisa, no mínimo, passar por uma reciclagem. Pauteiros,
editores, comentaristas e especialistas de plantão se
esqueceram da velha máxima de que resultado de eleição
secreta é como se dizia antigamente quanto ao sexo de
criança ainda no ventre materno: só se conhece
depois de aberta a urna. A tentação de antecipar
quem seria o eleito levou muitos experientes profissionais da
crônica política a uma das maiores barrigas da
história do jornalismo brasileiro.
O
exemplo mais notório foi o do debate na Rádio
CBN entre os deputados com maiores chances de vitória.
O premiadíssimo jornalista Heródoto Barbeiro foi
especialmente a Brasília e mediou o encontro entre os
candidatos: o oficial do PT e do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh,
o rebelde traído do PT, Virgílio Guimarães,
e, como contraponto – afinal, é imprescindível
ouvir o outro lado, pelo menos para aparentar neutralidade –,
o líder do PFL, José Carlos Aleluia. O problema
é que deixaram de lado os outros dois candidatos: Severino
Cavalcanti, rotulado de corporativista, e Jair Bolsonaro, que
só merece alguma atenção da mídia
pelo extremismo das suas posições. Deu no que
deu: os "eleitos" do debate perderam a eleição
real.
A
mesma situação ocorreu em outros veículos.
Não tão explicitamente como no caso do debate
da CBN, mas demonstrando que a cobertura da eleição
da mesa da Câmara estava permeada por uma postura até
certo ponto arrogante, que insistia em desprezar qualquer outro
resultado que não fosse o que interessava ao partido
dos eventuais ocupantes do Palácio do Planalto. A prepotência,
característica tangencial dos gatekeepers da nossa imprensa,
fez com que a prudência e a ética jornalística
fossem suplantadas pela lógica do rolo compressor que
vem marcando a prática do Poder Executivo em relação
ao Legislativo, na história política brasileira.
Acordos
de cúpula
É
surpreendente que profissionais vividos tenham se esquecido
de que a política, além de uma ciência,
é uma atividade humana. Portanto, não é
possível enquadrá-la cabalmente na lógica
matemática das probabilidades. Apesar das grandes discussões
atualmente serem ambientadas pela mídia, a realidade
da articulação política – em especial
a que se desenvolve no âmbito dos parlamentos –
ainda contempla a negociação de bastidores, a
conversa ao pé do ouvido e outras circunstâncias
menos visíveis que ajudam a decidir votações.
Outro
erro é a insistência em chamar o grupo de deputados
desprezados pelos jornalistas de integrantes do "baixo
clero". Um tratamento pejorativo que esconde um preconceito
incompatível com o jornalismo ético. Quem pensa
assim comete o grande equívoco de ignorar que o voto
do líder do governo tem o mesmo peso do voto do representante
dos eleitores de algum rincão brasileiro. Aliás,
independentemente de qualquer juízo que se possa fazer
do comportamento dos parlamentares, todos foram eleitos, têm
a delegação de uma boa parcela da população,
e deveriam ter o mesmo respeito por parte da imprensa em geral.
Se há problemas no sistema político-eleitoral
que possibilita a ascensão de oportunistas a todos os
níveis do poder, isso é outra discussão,
que deveria estar na pauta da mídia.
Vejamos,
daqui para a frente, qual será a atitude dos representantes
do "alto clero" da cobertura política, depois
da rasteira severina. A política brasileira é
maior que os acordos de cúpula. Os tais especialistas
da cobertura política deveriam ter sempre isto em mente.
(*)
Professor da UniEuro de Brasília, mestre em Comunicação
pela UnB e jornalista da TV Senado
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