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Fator Rumsfeld
Brasil e EUA ensaiam um cala-boca contra o jornalismo.
Informação:
Consultor Juridico
- 13/07/2004
Claudio Julio Tognolli
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atrás, conforme os ventos ideológicos se lhe aprouverem,
não seja talvez quiçá a face mais insinuante
dos nossos políticos: é a feição
mais recorrente de quem vai para o poder, no mundo em particular,
e no universo (também quiçá), em geral.
A bola da vez é calar a boca da mídia, vetar o
acesso às informações públicas e,
de chofre, tentar calar a boca do Ministério Público.
São ventos que correm ao mesmo tempo, em todo o mundo,
apenas contrapontuados por latitudes variadas e longitudes mais
ladinas, oblíquas: longitudes morais.
O
centro cinético dessa discussão aconteceu há
poucos dias, e é um barômetro a decretar solenemente
o sinal dos novos tempos. Em Chicago, entre 28 e 30 de junho,
a MTF (como é conhecida a Robert R. McCormick-Tribune
Foundation, www.rrmtf.org) promoveu seu seminário anual.
O deste ano foi realizado na cidade de Chicago (Illinois), no
hotel Le Meridién Chicago, quase em frente ao edifício-sede
do jornal The Chicago Tribune. O tema da reunião de Chicago
foi "Press Freedom". O assunto mais quente em todas
as exposições: o que é considerado um retrocesso
nas liberdades da mídia no pós-11 de Setembro.
Na
contramão
Esteve
no seminário Fernando Rodrigues, diretor-executivo da
Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo,
www.abraji.org.br). Causou espécie a Fernando o que viu
lá: um retrocesso bárbaro das chamadas Sunshine
Laws, leis de acesso à informação de interesse
público, e que renderam belíssima frase ao juiz
Hugo Black, da Corte Suprema dos EUA. "A luz do sol é
o mais poderoso detergente".
Relata
Fernando Rodrigues a este Observatório: "Os Estados
Unidos têm uma das legislações mais avançadas
do planeta no que diz respeito ao acesso a informações
públicas. Depois do 11 de Setembro, foi aprovada uma
lei (o Patriot Act) que permite a muitos agentes públicos
dificultar o acesso a informações – ao classificar
documentos de maneira vaga; por exemplo, como "sensitive".
Na dúvida, muitos servidores públicos fazem essa
classificação e o público fica sem ter
acesso".
Prossegue
Rodrigues que um dos políticos que mais defendem a restrição
ao acesso é Donald Rumsfeld, secretário da Defesa,
alegando segurança nacional. "É um caso clássico
de mudança de opinião. Durante o seminário
da McCormick, uma palestrante leu uma frase de Rumsfeld, de
1966, quando ele era deputado e um forte defensor do Freedom
of Information Act,nos EUA. Era justamente o contrário,
pelo acesso total às informações públicas".
Na
semana passada, aqui no Brasil, tivemos algumas novidades da
contramão da linha filosófica de Rumsfeld. O Ministério
Público do Estado de São Paulo anunciou, na quinta-feira
(8/7), a veiculação de três vídeos
institucionais, cada um de 30 segundos, encomendados a uma agência
de publicidade, em defesa do MP. A Rede Globo de Televisão
se comprometeu a exibir os vídeos gratuitamente. Foi
a primeira emissora que teve essa atitude, o que causou comoção
entre a elite do MP paulista.
Minando
as bases
"Os
três vídeos tratam de questões como o que
é a limitação dos poderes do MP, o que
representam essas mudanças e como funciona o MP. Serão
distribuídos a toda a mídia, em teatros e já
temos acordo de exibição deles em grandes cadeias
de cinemas de São Paulo", disse o promotor Roberto
Livianu, durante ato em prol do MP, realizado semana passada
na PUC, zona oeste de São Paulo.
"Contamos
com a mídia porque devemos pensar agora: o que teriam
acontecido com casos como o do PCC na Rodovia Castelinho, o
da máfia dos fiscais, o caso Celso Daniel, se não
fosse a atuação do MP", disse o procurador-geral
de Justiça, Rodrigo Pinho.
A
reação da mídia nunca foi tão bem-vinda.
Isso porque, em todo o mundo, governos, sobretudo com a consulta
aos spin doctors – os bruxos do lobby e da contra-informação
–, sabem que vetar acesso às informações
públicas é minar as bases do jornalismo sério,
o de interesse público. Vamos lembrar de uma frase disparada
pelo ministro José Dirceu.
"Portanto,
é o governo, são os partidos que sustentam o governo
que querem amordaçar o MP. Porque querem encobrir as
suas relações com irregularidades. Querem impedir
a ação do MP. No caso da CPI do narcotráfico
e do crime organizado, ou da CPI do PC, ou da CPI do Orçamento,
e da atuação diária do MP, nós estamos
lendo nomes e filiações partidárias daqueles
que são denunciados, cassados.
Acredito
que o Brasil precisa de leis para combater o crime organizado,
o narcotráfico e a corrupção. O Brasil
não precisa de leis para controlar o MP. Eu considero
isso uma mão para o crime organizado. Já disse
e repito, sem meias palavras: esses projetos de lei, essa PEC
são instrumentos que vão apenas estimular a impunidade
e dar a mão ao crime organizado."
A
frase consta de entrevista ao jornal da Associação
Nacional dos Procuradores da República, abril de 2000.
Agora vejamos dois exemplos a mostrar que a escola de Dirceu
é a mesma de Rumsfeld. "O ministro José Dirceu
(Casa Civil) defendeu ontem, durante ato de apoio ao deputado
federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT), um maior controle da atividade
do Ministério Público." É da Folha
de S. Paulo do dia 17/1/2004. Vejamos outra:
"O
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, sugeriu que
o Congresso Nacional tome providências sobre a ‘persistente
e permanente violação’ de direitos dos cidadãos
pelo Ministério Público (MP) e por parte da imprensa.
Ao fazer a crítica ao MP, o ministro disse que falava
como cidadão. "O Congresso Nacional precisa se debruçar
sobre essa situação de extrema gravidade",
disse, sugerindo que a Ordem dos Advogados do Brasil agisse.
"Estamos vendo a Constituição ser violada
diariamente numa série de procedimentos feitos seja pelo
Ministério Público seja pela imprensa", afirmou.
"Não é mais razoável tolerar esse
estado de coisas’".
Trata-se
de reportagem de O Povo de 17/1/2004. O fator Rumsfeld repetiu-se
no fim do ano passado. Causou grande surpresa no fim de 2003
ato da prefeita paulistana Marta Suplicy ao vetar projeto de
lei promulgado pela Câmara Municipal de São Paulo
que obrigava a prefeitura a publicar na internet e nas subprefeituras
informações sobre o orçamento da cidade
e sobre a execução desse orçamento (quanto
se gastou e em quê).
O
projeto, de autoria do vereador e economista Odilon Guedes (PT),
buscava ampliar o acesso de analistas, jornalistas, formadores
de opinião etc (daí a internet) e da população
em geral (por meio da afixação de quadros nas
sedes das subprefeituras) a informações fundamentais
sobre como o Executivo municipal gerencia a vida da cidade.
(Leia a íntegra do projeto de lei em www.transparencia.org.br/docs/pl-msp-091-03.pdf.).
As razões apresentadas para o veto (ver em www.transparencia.org.br/docs/veto-pl-msp-091-03.pdf)
são de que o projeto seria inconstitucional, ilegal e
contrário ao interesse público.
Afirma
a prefeita que, ao obrigar o Executivo a publicar dados sobre
seu desempenho, o Legislativo infringiria a independência
entre poderes (daí a pretensa inconstitucionalidade).
De acordo com a prefeita, caberia ao Executivo, e apenas a ele,
dispor sobre como divulgar as informações sobre
seu próprio desempenho. Claramente, trata-se de argumento
falacioso, uma vez que não cabe à Prefeitura exercer
o controle externo sobre si própria, mas à Câmara
Municipal – conforme estipula o Art. 31 da Constituição.
A
segunda justificativa do veto seria a ilegalidade da iniciativa,
a qual, conforme a prefeita, estaria no fato de o projeto não
especificar a fonte de recursos ou a estimativa do impacto orçamentário
que acarretaria.
Ronco
popular
O
repórter Flávio Siqueira, do sítio Última
Instância, informa que um memorial que defende posição
contrária à condução de investigações
criminais pelo Ministério Público foi entregue
ao STF (Supremo Tribunal Federal) por sete entidades jurídicas
com o objetivo de pressionar os 11 ministros do tribunal, que
devem decidir sobre a questão em agosto.
Diz
ele que "no documento, que inclui um parecer do professor
de direito constitucional da Universidade de São Paulo
José Afonso da Silva, são rebatidos quase todos
o argumentos utilizados por promotores e procuradores para defender
o seu poder de investigação. Subscrevem o memorial
o Instituto de Defesa do Direito de Defesa, a Associação
Internacional de Direito Penal, o Instituto Brasileiro de Ciências
Criminais, o Instituto Carioca de Criminologia, o Instituto
de Criminologia e Política Criminal, o Instituto Manoel
Pedro Pimentel e Instituto Interdisciplinar de Estudos Criminais."
Como
se vê, seja nos EUA, seja na Casa Civil, seja na Prefeitura
de São Paulo, instala-se a vontade do veto geral às
informações públicas. Que perigosamente
poderá ter a sua coroação em agosto próximo,
quando o STF vota a limitação dos poderes de investigação
do Ministério Público. Em todo o mundo, e no Brasil
e nos EUA em particular, ensaia-se um cala-boca histórico
contra o jornalismo. Ainda não se esboçou o que
deveria ser necessário: um reativo ronco popular do tamanho
das Diretas Já. Até nisso estamos ficando mais
lentos, apesar da internet e dos celulares: esperemos que não
seja tarde demais.
*Artigo
transcrito do site Observatório da Imprensa
Claudio
Julio Tognolli é repórter especial da revista
Consultor Jurídico e da Rádio Jovem Pan, professor
da ECA-USP e do Unifiam (SP) e membro do International Consortium
of Investigative Journalists (www.icij.org).
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