Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
TV
barra obrigação de exibir independentes.
Laura
Mattos
As
TVs abertas conseguiram: o novo texto da Ancinav (Agência
Nacional do Cinema e do Audiovisual), que deverá ser
divulgado nesta semana, não mais as obriga a firmar anualmente
um compromisso público, intermediado pelo governo federal,
de exibir programas e filmes nacionais de produtoras independentes.
O
artigo, derrubado pelas redes, constava do projeto de lei de
criação da Ancinav negociada com o setor e colocada
em consulta pública. A intenção do Ministério
da Cultura, no qual a agência é desenvolvida, era
fazer com que as emissoras abrissem espaço para produções
de fora, a fim de "oxigenar" a programação
e fomentar o mercado audiovisual do país. No Brasil,
as TVs produzem praticamente tudo o que levam ao ar, diferentemente
do que ocorre nos EUA e em países da Europa.
Até
o ano passado, as redes norte-americanas eram obrigadas por
lei a produzir apenas 30% da programação e comprar
o restante de outras empresas (a regra foi flexibilizada em
2003). Com isso, passaram a concentrar esforços no jornalismo.
As famosas séries e "reality shows" costumam
ser fornecidos às TVs por produtoras.
Apesar
de uma recente abertura brasileira a independentes, acelerada
pela crise financeira na TV, os exemplos ainda são raros,
como a série "Cidade dos Homens", desenvolvida
para a Globo pela O2, do cineasta Fernando Meirelles ("Cidade
de Deus"), o seriado "Turma do Gueto" e a novela
"Metamorphoses", comprados pela Record da Casablanca.
Marco
Altberg, presidente da Associação Brasileira de
Produtoras Independentes de TV, diz que o espaço às
produtoras ainda é "irrisório". "A
TV aberta é fechada. Independentemente de lei, iremos
nos reunir com as redes para mostrar os benefícios dessa
parceria, que pode tornar os custos mais baixos dos que a produção
interna", diz ele, que é favorável à
Ancinav e a uma lei que obrigue as TVs a abrir a programação.
Orlando
Senna, secretário do Audiovisual do Ministério
da Cultura, critica o fato de a relação entre
as TVs abertas comercias e as produtoras independentes ser "mínima".
"As redes deveriam perceber que têm um compromisso
social. Mais espaço à produção independente
poderia trazer oxigenação dos conteúdos,
melhoria de qualidade e maior chance de representação
da variedade da sociedade brasileira."
Obrigatório
x opcional
Em troca do compromisso público previsto na minuta anterior
da Ancinav, a nova trará desconto progressivo da Condecine
(Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria
Cinematográfica) para os canais que exibirem independentes
em mais de 20% da programação. O que antes tinha
caráter de obrigatoriedade, passou a ser opcional: quem
comprar programa paga menos taxa pelos feitos "em casa";
quem não comprar arca com o imposto integral.
O
valor da taxa deverá ser de R$ 700 por obra. Uma novela,
por exemplo, tem em torno de 200 capítulos. Se a Globo
continuar produzindo quase tudo o que veicula, gastará
perto de R$ 140 mil por uma trama inteira. Dois dados relevantes
para avaliar quanto isso representaria para a emissora: cada
capítulo tem um custo aproximado de R$ 200 mil e um único
merchandising na trama das oito chega a render R$ 400 mil.
Lobby
O MinC deve divulgar o texto da Ancinav amanhã ou terça
no www.cultura.org.br.
O documento será discutido no dia 9 pelo Conselho Superior
de Cinema, formado por nove ministérios (entre eles Casa
Civil, Cultura e Fazenda) e representantes do setor. Em seguida,
passará por apreciação do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e será encaminhado ao Congresso.
Apesar da mudança em relação à produção
independente, entre outras alterações, as TVs
não estão satisfeitas com os termos e planejam
tentar convencer deputados a derrubá-los.
Na
semana passada, a Abert (associação de emissoras
brasileiras) e outras entidades da indústria cinematográfica
lançaram o Fórum pelo Desenvolvimento do Audiovisual
e do Cinema (FAC), contrário à Ancinav. Coordenador-geral,
o cineasta Roberto Farias, que nega que o FAC tenha sido criado
em razão da agência, critica a tentativa de impor
às TVs uma abertura à produção independente.
Diretor
da TV Globo, ele afirmou à Folha que "a demanda
por conteúdo audiovisual é crescente no mundo,
e a tendência é que as TVs busquem parcerias".
"Não achamos necessário criar uma obrigatoriedade."
Ele disse que o espaço aberto pelas redes brasileiras
ainda é "insipiente, mas deverá crescer,
principalmente com a chegada da TV digital [que pode ampliar
o número de canais]".
A
Abert, que das grandes redes representa a Globo, concorda. "A
sociedade brasileira aprendeu o que é ser livre. Não
serão regras feitas em gabinetes por alienígenas
ao setor que vão resolver alguma coisa. Nosso modelo
é o da livre iniciativa, que oferece espaço a
quem tem condição de produzir com qualidade, numa
melhor relação custo/benefício", disse
José Pizani, presidente da associação.
Record,
Band e SBT e Rede TV! têm posição semelhante,
apesar de a Abra, associação que as representa,
não ter se pronunciado sobre o assunto. Presidente da
Band e da entidade, Johnny Saad declarou, em entrevista publicada
pela Folha na semana passada, que a Ancinav "é ruim
e feia".
"Cidade
de Deus" cria brecha na Globo.
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Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
Maior
produtora de conteúdo televisivo do país e uma
das principais do mundo, a Globo precisou de um "embrião
de candidato ao Oscar" para realmente acreditar na produção
independente.
A
principal brecha na programação global recente
foi aberta pelo cineasta Fernando Meirelles, em 2000, com "Palace
2", parte do especial "Brava Gente Brasileira".
Desenvolvido por sua produtora, a O2, foi uma espécie
de teste para a filmagem, no ano seguinte, de "Cidade de
Deus", que rendeu ao Brasil quatro indicações
ao Oscar.
O
acordo entre Meirelles e a Globo chegou à série
"Cidade dos Homens", que neste ano teve a terceira
temporada, dirigida por Paulo Morelli, sócio da O2.
Maior
produtora de filmes publicitários do país, é
uma espécie de continuação da Olhar Eletrônico
(O2 é "olhar 2"). Lançada por estudantes
da USP em 83, criou para a TV Ernesto Varela, interpretado por
Marcelo Tas. Meirelles dirigiu o quadro e foi seu cameraman,
que se transformou no personagem (oculto) Valdeci.
À
época, diz Morelli, a TV não se mostrava pronta
para absorver produções independentes. Por essa
razão, ele e Meirelles criaram, em 91, a O2, focada em
publicidade. Em 97, teve início a produção
de curtas, e Andrea Barata Ribeiro entrou para a sociedade.
A
O2 produziu quatro longas: "O Preço da Paz",
"Viva Voz" (Morelli), "Domésticas"
e "Cidade de Deus" (Meirelles), que ampliou sua penetração
internacional. A empresa, que tem estúdios numa área
de 14 mil metros quadrados, em Cotia (Grande SP), não
divulga seu faturamento.
Afirma
que 85% provém da publicidade e 15% da TV e cinema. "Acreditamos
que o jeito atual de fazer comercial tende a desaparecer, e
o próximo passo do negócio está ligado
à produção de conteúdo. Nosso investimento
nisso é estratégico", diz Morelli.
(LM)
Abertura
ainda é restrita a poucos.
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Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
A
parceria entre TVs abertas comerciais e produtoras independentes
é considerada estratégica e avaliada como uma
tendência por ambos os lados. As redes começam
a se abrir, mas o espaço ainda é restrito a um
pequeno grupo.
Dentre
as principais produtoras do país, que começam
a conquistar as brechas da programação, estão
(leia ao lado): Casablanca ("Metamorphoses"/Record),
O2 ("Cidade dos Homens"/Globo), GGP ou Gugu Produções
("Raízes do Campo"/Record) e Conspiração
(negociação para duas séries). Do grupo,
só a O2 se diz favorável à idéia
de que as TVs tenham de reservar espaço a independentes.
"Não sei se apóio os termos como isso está
colocado na Ancinav, porque não vi como está escrito,
mas apóio a idéia", afirmou Paulo Morelli,
sócio da produtora e diretor de "Cidade dos Homens".
A
de Gugu, que planeja ter sua própria TV, é contra
a obrigatoriedade. "Qualidade não se impõe",
disse Homero Salles, gerente da GGP. Para Patrick Siaretta,
da Casablanca, "obrigar é contraproducente. "As
TVs perceberão que a produção independente
é eficiente." "A princípio, não
considero a obrigatoriedade um mecanismo eficiente", disse
Leonardo Monteiro de Barros, diretor de marketing da Conspiração.
(LM)
Colaborou
Luiz Fernando Vianna, da Sucursal do Rio
Conspiração
mira emissoras abertas.
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Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
Consolidada
nos ramos de publicidade e cinema, a Conspiração
Filmes planeja adentrar em 2005 o mercado das TVs abertas. A
produtora carioca tem prontos dois projetos a serem apresentados
às emissoras: uma "sitcom" (comédia
de situação) e uma série. A idéia
não é comprar horários nas grades de programação.
"Queremos
uma parceria com o canal. Como será essa parceria é
a negociação quem vai determinar", diz o
diretor de marketing e distribuição da Conspiração,
Leonardo Monteiro de Barros.
Em
2002, a produtora conversou com a TV Globo sobre uma possível
parceria, mas não se chegou a um "entendimento contratual",
segundo Barros. De lá para cá, a Conspiração
cedeu dois diretores (Claudio Torres e Carolina Jabor) para
realizar programas na emissora e fez longas-metragens com apoio
da Globo Filmes.
Tendo
dois formatos possíveis (13 ou 26 episódios),
os projetos já concluídos são os primeiros
frutos do núcleo de desenvolvimento que a empresa criou
em 2003. O objetivo é produzir para cinema e TV. Por
sugestão do núcleo, a Conspiração
comprou os direitos de "Pluft, o Fantasminha", de
Maria Clara Machado, "O Canto da Sereia", de Nelson
Motta, e "Eu e Meu Guarda-Chuva", de Branco Mello
e Hugo Possolo.
Na
TV paga, a estréia da produtora já está
certa para o último trimestre de 2005, com a exibição
na HBO dos oito capítulos de "Mandrake", série
baseada no personagem de Rubem Fonseca. "O financiamento
é 100% da HBO, mas a maior parte do copyright é
nosso, já que entramos com toda a criação
e realização. É uma co-produção
de fato", diz Barros.
Ele
ainda não sabe prever se o mesmo seria possível
numa emissora aberta. "A TV aberta sempre foi fechada no
Brasil. Só exibia produções próprias.
Isso está mudando", afirma.
Gugu
tem estrutura para criar canal.
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Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
Em
seu primeiro ano de funcionamento, a GGP, ou Gugu Produções,
fechará o ano com faturamento de R$ 4,5 milhões.
A construção da sede da produtora de Gugu Liberato,
em Alphaville (Grande SP), levou dois anos e teve um custo total
de R$ 11 milhões. Só em equipamento foram investidos
R$ 2 milhões.
Gugu,
que briga na Justiça para reconquistar um canal que comprou
no Mato Grosso, recebeu a Folha para mostrar as instalações.
Ele nega que seja embrião de uma futura emissora (a programação,
por lei, tem de ser gerada no MS), mas afirma que poderá
produzir no local programas para sua TV.
Com
90 funcionários, a sede tem estúdios amplos, auditório
e camarins. É uma estrutura maior do que a de algumas
redes.
Gugu
adquiriu um caminhão com estúdio móvel
avaliado em US$ 1,5 milhão, antes usado no "Sai
de Baixo" (Globo). Produz atualmente para a Record o "Raízes
do Campo" e o "SBT Rural", com audiências
satisfatórias para os canais. E comprou textos do autor
Geraldo Vietri a fim de produzir novelas, séries e teleteatros.
"Quando comecei a trabalhar com Silvio Santos, antes do
SBT, ele fazia seu programa de forma independente. No longo
prazo, as TVs brasileiras devem se concentrar na produção
de jornalismo e comprar o restante", diz. (LM)
Casablanca
planeja "reality show"
Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/11/2004
No
mercado cinematográfico brasileiro desde os anos 60,
a família Siaretta, proprietária da Casablanca/Teleimage,
conquistou no ano passado um faturamento de US$ 18 milhões
e prevê um crescimento de 25% para 2004.
Principal
finalizadora de comerciais do país, a empresa tem investido
no cinema nacional e vê a produção para
a televisão como o grande negócio do futuro.
Até
agora, teve duas experiências, ambas com a Record: a bem-sucedida
série "Turma do Gueto", exibida com boa audiência
por dois anos, e a novela "Metamorphoses", fracasso
no Ibope, com final antecipado pela emissora.
Apesar disso, Patrick Siaretta, sócio do grupo, diz acreditar
que a exibição da trama tenha sido "positiva
para mostrar a qualidade técnica da empresa". E
se prepara para novas parcerias com emissoras abertas, inclusive
com a Record. Nos planos, estão um "reality show"
e outra novela.
Para
ele, o fato de as redes abertas produzirem tudo o que veiculam
"é uma deturpação, que só existe
no Brasil". "Com a crise enfrentada pelas TVs, inclusive
pela Globo, é inevitável que esse esquema mude,
e aí a produção independente irá
deslanchar. As produtoras têm formas de operar mais flexíveis
e estruturas mais enxutas que os canais, o que certamente reduz
os custos." (LM)
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