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Informação:
Observatório
da Imprensa - 21/12/2004
Nelson
Hoineff
Desde
que o governo apresentou o anteprojeto da lei que transforma
a Agência Nacional do Cinema (Ancine) em Agência
Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), em agosto de
2004, ficou claro que um importante campo de batalha estaria
situado na mídia.
A
mídia foi, na verdade, o primeiro entre todos os campos
de batalha. Ela começou a manifestar-se sobre o assunto
antes mesmo de sua discussão no âmbito do Conselho
Superior de Cinema (CSC), que é o foro adequado. E manifestou-se
com tanta veemência – mas ao mesmo tempo com tanta
falta de informação – que acabou criando
quase que um sentimento nacional sobre a questão da Ancinav,
embora tenha produzido quase nenhuma massa crítica sobre
o projeto.
Passados
quatro meses, 12 reuniões e mais de 110 horas de discussão
no CSC, o projeto foi bem aprimorado em relação
à sua configuração inicial. Deveria ter
sido discutido no pleno do Conselho (isto é, os 18 integrantes
da sociedade civil mais os 9 ministros de Estado) na quinta-feira,
16/12. Mas a reunião foi adiada, o que deu margem a especulações.
A
versão oficial é que não foi possível
conciliar a agenda dos 9 ministros para essa data. Outras versões
falam de pressões vindas de todos os lados, principalmente
dos radiodifusores, para que o envio do projeto ao presidente
da República seja protelado tanto quanto possível.
E até para que o presidente desista completamente de
sua intenção de enviar o projeto da criação
da Ancinav ao Congresso Nacional.
Nesse
contexto, a batalha na mídia ganhou em intensidade. Mas
há indícios de que tenha perdido mais ainda em
substância. Como em qualquer outra guerra, a primeira
vítima está sendo a verdade.
A
isenção é possível?
O
assunto acabou se transformando num grande desafio para a mídia.
É possível, por exemplo, haver cobertura imparcial
de um jornal, se uma emissora de TV do mesmo grupo é
uma firme antagonista do projeto?
Os
que defendem o projeto da Ancinav tentam demonstrar que as emissoras
de televisão não deveriam estar preocupadas com
ele na forma em que se encontra hoje. É uma tese perfeitamente
defensável. Na versão que foi enviada aos ministros,
não há resquícios de dirigismo, nem de
interferência sobre o conteúdo, nem limitações
em relação à dominação de
mercado, nem mesmo ameaças à liberdade dos empresários
de comunicação no que diga respeito ao controle
cruzado dos meios.
As
emissoras têm resistido a qualquer forma de regulação
que as lembre de que uma concessão para a difusão
e comercialização de conteúdo audiovisual
não equivale a uma licença para monopolizar a
produção. Elas têm tido, sobretudo, dificuldade
para se reconhecerem como as agentes mais importantes para as
mudanças de base na cultura televisiva vigente no país,
que seriam benéficas para todo o ambiente televisivo
– portanto, também para as emissoras.
O
modelo atual desestimula a diversidade da produção
e tem gerado resultados ruins tanto para a qualidade da programação
quanto para o resultado financeiro da maioria das emissoras.
Na maior parte dos modelos vigentes na Europa e nos EUA, onde
existem parcerias efetivas entre as emissoras e os produtores,
os resultados artísticos e financeiros são bem
melhores. Justamente por isso as emissoras de televisão
estariam entre as maiores beneficiárias da mudança
dessa cultura – embora, ainda assim, é um direito
delas serem contra o projeto da Ancinav. O debate está
instalado – e as emissoras de televisão são
um de seus protagonistas.
O
fato de a questão da propriedade cruzada dos meios de
comunicação não estar em discussão
no projeto da Ancinav deveria ser um grande estímulo
a que os jornais – todos os jornais, sobretudo os de maior
circulação e credibilidade – dedicarem a
ele um tratamento imparcial, ainda que manifestando, em editoriais,
a posição das empresas a que pertencem.
Há
dúvidas, porém, de que isso esteja acontecendo.
Na quinta-feira (16/12), dia originalmente marcado para a reunião
do pleno do CSC com os 9 ministros, O Globo publicou matéria
sob o título "Artistas e intelectuais criticam ação
da Ancinav". O texto diz respeito a um ciclo de debates
promovido desde o dia anterior pelo Fórum de Audiovisual
e Cinema (FAC).
Explicação
nos bastidores
O
FAC é uma nova federação que reúne
13 entidades do meio audiovisual (e não 13 mil, como
diz a matéria). Foi criado há um mês pela
dissidência de algumas entidades que até então
faziam parte do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC). Representa
os interesses dos grandes produtores e distribuidores, além
da Globo. Gosta de dizer que representa o PIB da indústria
audiovisual brasileira. É uma federação
legítima, formada por entidades legítimas, que
defendem interesses legítimos. Mas no debate da Ancinav
é apenas uma das peças, num tabuleiro onde se
movimentam muitas outras.
Para
o ciclo de debates promovido pelo FAC foram convidadas personalidades
que se identificam com seus propósitos. Como o cineasta
e jornalista Arnaldo Jabor, que ocupa a maior parte do texto,
o diretor Roberto Farias e o antropólogo Roberto da Matta.
O próprio João da Silveira, citado pelo texto
como o "único representante do governo", é
na verdade o único opositor da Ancinav dentro da diretoria
colegiada da Ancine.
O
encontro, portanto, expôs, como toda legitimidade, as
posições do FAC relativas à questão.
Mas a cobertura dada pelo Globo está longe de deixar
isso claro. A fiar-se nela, tem-se a impressão de que,
como diz o título, os artistas e intelectuais brasileiros
decidiram todos cerrar fileiras contra o projeto.
O
teor da matéria foi duramente criticado no dia seguinte
por muitas entidades ligadas ao processo, inclusive o próprio
Congresso Brasileiro de Cinema. A Associação Brasileira
de Documentaristas (ABD), que representa documentaristas e curtametragistas
de todo o país, foi uma das mais enfáticas em
seu comunicado:
"A
ABD (...) vem manifestar sua indignação
e repúdio à maneira como parte da grande
imprensa brasileira – especialmente as Organizações
Globo – vem tratando o assunto Ancinav em suas
matérias e editoriais. Não é mais
possível que num país – cuja história
recente nos mostra que alguns jornais eram obrigados
pelo regime ditatorial a publicar receitas culinárias
em lugar de notícias sobre torturas e outras
violações dos direitos humanos –
o poder do jornalismo de massa seja usado para difundir
mentiras e escamotear as reais intenções
de grupos poderosos até então hegemônicos
no cinema e no audiovisual que circula em nossas telas
grandes ou pequenas. O pior do fato é que este
setor da imprensa, que se diz ‘livre’, não
abre o mesmo espaço para opiniões que
não estejam compactuadas com as suas. (...) Lamentamos
profundamente que artistas e cineastas por quem temos
profunda admiração artística (...)
tenham incluído seu pensamento, sua moral e sua
alma nos contratos de trabalho e patrocínio que
possuem com a Rede Globo". |
No
mesmo dia 17, O Estado de S.Paulo, na cobertura do mesmo evento,
dava ao leitor uma informação bem mais equilibrada,
ao começar do título: "Globo põe artistas
na trincheira contra Ancinav". E sobretudo no subtítulo:
"Num evento em São Paulo, que teve a emissora nos
bastidores, projeto do Minc foi dissecado. E enxovalhado".
O
texto explicava ao leitor que "na platéia do debate
de anteontem, o que chamava a atenção era a concentração
de estrelas. Nos bastidores, a explicação: como
está na linha de frente da trincheira, a TV Globo intimou
grandes nomes de seu elenco a comparecer".
Heliodora,
Zdhanov e Goebbels
O
Globo teria prestado melhor serviço ao seu leitor –
e ao debate sobre uma questão controversa – se
não omitisse essas informações. O fato
é que o tema Ancinav permaneceu presente no jornal carioca
pelas brechas mais improváveis.
No
sábado (18/12), ao longo de um artigo que ocupava toda
a primeira página do Segundo Caderno do jornal, a crítica
de teatro Bárbara Heliodora analisava a decadência
do teatro brasileiro afirmando que as lembranças do teatro
de outros tempos fazem a crítica teatral temer pelo futuro
das artes cênicas no Brasil. No último parágrafo
do seu texto, Heliodora diz o seguinte:
"O
teatro é de tal modo ignorado pelos poderes públicos
que pode passar como não sendo relevante para
ele o lastimável e assustador projeto da Ancinav,
nitidamente inspirado no que há de pior em Zdhanov
e Goebels [sic]". |
É
difícil saber o que levou Bárbara Heliodora a
se referir ao assunto, ainda mais no contexto de algo tão
diferente, e sobretudo quem pegou mais pesado: se ela –
que não explica o que há no projeto que represente
o pior do chefe da censura de Stalin e do chefe da propaganda
(na verdade Goebbels) de Hitler – ou O Globo. O fato é
que as opiniões de Heliodora sobre a Ancinav ocupavam
apenas 11 linhas – mas ganharam chamada na primeira página.
No
mesmo dia, Jorge Bastos Moreno defendia Gilberto Gil, rebaixado,
segundo ele, a "crooner do governo" e dizia: "Isso
é uma exploração, aviltação,
mais valia (...) uma pura Ancinav".
Legitimidade
e informação
A
guerra da informação é mera etapa de uma
estratégia que começa na ação dentro
do Conselho Superior de Cinema, passa pela criação
de uma federação representativa como o FAC, pelo
estímulo a que artistas conhecidos do público
manifestem-se contra o projeto, vai ter continuidade no encaminhamento
de substitutivo ao ministro Gilberto Gil, na tentativa de desqualificação
do projeto original junto ao ministro, e, finalmente, na pressão
sobre o Legislativo.
A
Globo está exercendo um direito legítimo (ainda
que politicamente possa estar equivocada) em se posicionar contra
o projeto da Ancinav, assim como qualquer jornal, inclusive
O Globo, tem o legítimo direito de manifestar sua opinião
sobre o assunto – e é bom que o faça. Mas
ao se examinar se a mídia está usando de maneira
justa a complexa dicotomia entre a defesa do que pensa e a defesa
da informação plena ao leitor sobre um assunto
da qual ela é também protagonista, verifica-se
que isso não está acontecendo.
A
mídia impressa tem uma grande chance de usar esse episódio
para demonstrar sua independência em relação
aos interesses das corporações que a abrigam –
o que é uma praxe, aliás, na grande imprensa norte-americana.
Mas, para o leitor, o projeto do Ministério da Cultura
ainda está sendo apresentado como um cerceador da liberdade
de expressão, contra o qual toda a classe artística
está se manifestando. Isto não é verdade,
assim como não seria verdadeiro afirmar que a categoria
inteira está fechada com o projeto – o que várias
coberturas das reuniões do CBC ocorridas durante o Festival
de Cinema de Brasília, realizado há duas semanas,
deixaram transparecer ,– menos por compromisso do que
por falta de competência.
A
imprensa está jogando um jogo no qual ela não
é protagonista direta, como as emissoras de TV. Um jogo
em que podem existir, para os jornais e revistas, grandes vitórias.
Mas também perdas maiores do que as que as televisões
estão imaginando que elas próprias possam ser
vítimas. A maior das vitórias consiste em municiar
o leitor de informações completas. A maior das
perdas reside na perda da confiança desse leitor.
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