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Essência da Ancinav responde anseios de documento da Globo.


 

Informação: Agência Carta Maior - 19/08/2004
Maurício Hashizume

Entregue a Lula em julho, documento-síntese do seminário “Conteúdo Brasil”, organizado pela TV Globo em parceria com a PUC-SP, pede regulação e ações diretas do Estado com vistas à valorização da produção cultural brasileira.

No trecho final da exposição de motivos do projeto de lei de criação da Agência Nacional de Cinema e do Audiovisual (Ancinav), a iniciativa do Ministério das Comunicações (MinC) é classificada como “um salto na preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro e no desenvolvimento das atividades cinematográficas e audiovisuais no Brasil, marco indelével no processo de aprimoramento de nossas instituições”.

“É preciso evitar a perda de hegemonia econômica nacional na cultura. O domínio econômico interfere, reorganiza e dirige a produção e circulação de bens culturais, com forte impacto sobre o modo de fazer, criar e viver dos brasileiros. O que se vê é a Globalização tendendo a uniformizar idéias e modos de vida, uma uniformização feita, sobretudo, sob a influência americana”. Conceitualmente, esse poderia ser mais um trecho da exposição de motivos da proposta da Ancinav. No entanto, a argumentação que abre este parágrafo faz parte do documento-síntese do seminário “Conteúdo Brasil”, organizado pela TV Globo em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no início deste ano. No início de julho, uma comitiva de artistas "globais" entregou as conclusões aprovadas em plenário pelos atores, cineastas, escritores, produtores, publicitários, jornalistas, diretores de TV, editores de livros, arquitetos, cientistas e educadores que participaram do evento.

O documento pede, fundamentalmente, a intervenção do Poder Executivo e do Congresso Nacional na regulação do setor de produção cultural para: 1) estender as regras da radiodifusão para a transmissão de conteúdo pelas empresas de telecomunicação; 2) ações de proteção ao produto cultural nacional; 3) políticas públicas e investimentos para reforçar o caráter estratégico da cultura; 4) incremento da divulgação do conteúdo em escala interna e externa; 5) atenção especial à educação para formação cultural; 6) garantia da liberdade de expressão artística e intelectual e de informação e comunicação. A sustentação apresentada pelo MinC à premência da regulação ao setor vai ao encontro do disposto no item “Globalização e Cultura Nacional” do documento da TV Globo. “A veiculação de conteúdos estrangeiros faz (...) parte de uma estratégia de dominação cultural dos mercados emergentes, em apoio à dominação econômica e política. É uma ameaça promovida pelas grandes produtoras mundiais de mídia e os gigantes das telecomunicações, com o poder que lhes conferem, nos seus países de origem, mercados internos fortes, crédito farto e políticas governamentais altamente favoráveis”.

Trata-se de uma luta desigual, afirma a Globo no documento. Em números de 2001, divulgados por revista especializada, é assim o faturamento dos grandes grupos: AOL-Time Warner, US$ 36 bilhões; Walt Disney, US$ 25 bilhões; Viacom, US$ 23 bilhões; Vivendi, US$ 24 bilhões; Bertelsmann, US$ 19 bilhões; News Corporation, US$ 13,8 bilhões; Comcast, US$ 8 bilhões. No Brasil, segundo dados publicados na imprensa, a TV Globo, o maior grupo de mídia do país, teve no mesmo ano um faturamento de US$ 1 bilhão; a Abril, US$ 494 milhões; Estado de S. Paulo, US$ 210 milhões; Folha, US$ 196 milhões; SBT, US$ 182 milhões. “Mas esqueçamos os grandes grupos estrangeiros. Analisemos o que é considerado um pequeno grupo de mída, o alemão Axel Springer, que edita, entre outros, o tablóide Bild e o Die Welt (o Bild vende milhões). Seu faturamento em 2001 foi de US$ 3 bi, três vezes maior do que o da maior empressa de mídia nacional”, complementa o texto de conclusão do “Conteúdo Brasil”.

Ainda de acordo com o documento, o desenvolvimento e a expansão da indústria cultural nesses países não é obra apenas de seus grandes conglomerados, mas parte de uma estratégia de Estado. “Precisamos assim, urgentemente, formular e implementar uma clara política cultural, com o objetivo de fomentar e proteger os conteúdos nacionais, revendo as regras que regem as atividades de produção, distribuição, comercialização e consumo. Isso tanto para fortalecer o nosso próprio mercado como para aumentar a nossa presença no mercado mundial de bens e serviços culturais”, complementa.

No capítulo sobre “Convergência Tecnológica”, mais coincidências. “Os marcos legais para a comunicação social, no Brasil, derivam da Constituição de 1988, quando não havia telefones celulares, internet e fluxo de dados transfronteiras na diversidade e intensidade atuais. Em função disso, a Constituição de 1988 trata basicamente de dois temas: a cultura como ativo a ser protegido e fomentado pelo Estado e a regulação das empresas jornalísticas e de radiodifusão, que eram os únicos meios existentes na época para veiculação dos conteúdos de jornais impressos, rádios e TVs”. E segue: “Falta, portanto, no ambiente regulatório em vigor, uma visão ampla e integrada das comunicações, que podem ser mais bem entendidas se separarmos as quatro camadas que as compõem: infra-estrutura, serviços, aplicações e conteúdo (...). A camada do conteúdo está regulamentada apenas para as mídias que usam as infraestruturas tradicionais: rádio, televisão convencional, jornal e revista. Mas quem “transmite” uma estação de televisão ou um jornal pela internet não é obrigado a seguir nenhuma regulamentação. Isso é uma assimetria, que deve ser estudada e que pode levar à criação de um novo marco regulatório”.

Mas apesar das congruências, na parte sobre “Qualidade e Liberdade” do documento entregue a Lula é que as reivindicações da TV Globo se diferenciam dos anseios do Ministério da Cultura materializados no projeto da Ancinav. Valendo-se das dimensões propostas pelo professor Arlindo Machado (PUC-SP), o “Conteúdo Brasil” coloca como primeiro item da definição do que é “qualidade” - especificamente no setor do audiovisual - o conceito técnico, seguido do conceito mercadológico. Logo em seguida aparecem os conceitos de inventividade, do potencial pedagógico e político. Por fim, os dois últimos conceitos necessários para “qualidade”, na consolidação de recomendações da TV Globo, são o de minoria e de diversidade.

Apesar do documento global frisar que a “qualidade” estabelecida por Machado no livro “A televisão levada a sério” prevê a reunião simultânea dos seguintes conceitos, o espaço para as minorias e a diversidade cultural aparecem com mais destaque e vigor nas justificativas apresentadas pelo MinC para propor a criação de uma nova agência reguladora para o setor.