Informação:
Observatório
da Imprensa - 17/08/2004
Nelson Hoineff
Foi
uma falta de sorte cinematográfica o Ministério
da Cultura apresentar o projeto de lei que cria a Agência
Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) quase ao mesmo
tempo em que o governo mandava para o Congresso a proposta da
criação do Conselho Federal de Jornalismo. Em
primeiro lugar porque a mais remota defesa de um monstrengo
como o CFJ desautoriza o interlocutor a se manifestar sobre
qualquer outro assunto, muito especialmente se ele diga respeito
à televisão, ao cinema e à internet. Depois,
porque jornalismo, audiovisual e liberdade de expressão
se confundiram de tal maneira que tornou-se quase impossível
tratá-los de forma diferenciada.
Não
deveria ser assim, mas assim o foi. A confusão se deu
até no âmbito da grande imprensa. A edição
de Veja que foi às bancas no último domingo (com
data de 18/8/04), por exemplo, traz na capa, como chamada principal,
"A tentação totalitária – As
investidas do governo do PT para vigiar e controlar a imprensa,
a televisão e a cultura". Na matéria, que
se estende por 11 páginas e meia, há uma forte
e consistente artilharia contra o Conselho Federal de Jornalismo,
mas nem uma única palavra sobre o controle à televisão
e muito menos à cultura. Se Veja mirou na Ancinav e não
passou do CFJ, não é difícil imaginar a
confusão que está na cabeça do chamado
grande público.
Vale
lembrar que a Ancinav tentou nascer pela primeira vez no final
do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi abortada discretamente,
48 horas antes da publicação da MP 2228-1, em
setembro de 2001, por pressão das emissoras de televisão.
A agência reguladora que seria criada ficou então
regulando apenas o cinema e foi batizada de Ancine (Agência
Nacional do Cinema). Os leitores ficaram sabendo, no máximo,
por notas de pé de página.
O
encaminhamento da primeira Ancinav não foi muito melhor
do que o promovido agora. Ela foi gestada pelo Gedic (Grupo
Executivo da Indústria Cinematográfica), um grupo
de "notáveis" da atividade cinematográfica
que se reuniu durante vários meses com o então
ministro Pedro Parente, da Casa Civil. O grupo tinha uma espécie
de carta branca tácita da categoria – o que seria
impossível hoje, visto que o cinema está dividido
– mas não foi indicado e nem respondia a qualquer
entidade de classe.
Na
época, o relator do Gedic na questão das relações
com a televisão foi o cineasta Cacá Diegues –
hoje um dos principais críticos do projeto da nova Ancinav.
Esse fato é emblemático do que está acontecendo
agora. Mudou Cacá (e com ele vários cineastas
que apoiavam o projeto e agora deixaram de faze-lo) ou mudou
a Ancinav?
Finalidades
públicas
Nem
uma coisa nem outra – ou ambas ao mesmo tempo. Em alguns
dos seus fundamentos, a Ancinav mudou muito pouco. Os artigos
tecnicamente mais controvertidos ali estão. Entre eles
o artigo 70, que estabelece uma taxação de 4%
sobre o faturamento das emissoras de televisão (agora,
sobre o seu faturamento publicitário, o que vem a ser
quase a mesma coisa) para a caixa da Condecine (Contribuição
ao Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica),
que alocará os recursos na produção e na
fiscalização.
Isso,
é claro, pode gerar uma boa quantidade de recursos para
a produção audiovisual brasileira (a rigor cerca
de 120 milhões de reais ao ano), mas também é
claro que não está agradando nem um pouquinho
às emissoras de televisão – ainda que seus
defensores sustentem que esses recursos voltarão às
TVs na forma de produto audiovisual qualificado, portanto programação
de qualidade.
Muitos
outros pontos dos capítulos tributários (descritos
nos artigos 63 a 70) serão objeto de contestação
pelas partes interessadas. Os exibidores e os distribuidores,
por exemplo, vão se opor ferozmente à Condecine
de 600 mil reais para filmes lançados com mais de 200
cópias (artigo 64 incisos I e III), ou à sobretaxa
de 10% sobre o valores dos ingressos de cinema (artigo 68).
Já os produtores cinematográficos certamente vão
se opor ao artigo 103, que tira dos benefícios da lei
Rouanet os filmes ficcionais de longa-metragem.
As
questões mais polêmicas do novo projeto, no entanto,
não são as que mexem nas contas bancárias
dos envolvidos, mas nas suas consciências. São
questões que têm pouco a ver com a regulação
da atividade audiovisual – que é do que trata o
projeto da Ancinav – e que, portanto, não têm
razão visível de estar ali.
Entre
elas está o artigo 43, que o governo já se dispôs
a retirar, que dava à Ancinav a competência para
dispor sobre "a responsabilidade editorial e as atividades
de seleção e direção da programação
previstas pela Constituição Federal". Mas
há outros artigos incômodos para a livre expressão
do pensamento e que também estão visivelmente
deslocados no projeto. Um deles é o artigo 8, cujo texto
afirma que "no exercício da regulação
das atividades cinematográficas e audiovisuais, o Poder
Público observará a exigência de mínima
intervenção na vida privada". Como se não
bastasse, assegura, no inciso I, que "a liberdade será
a regra, constituindo exceções as proibições,
restrições e interferências do Poder Público".
Não
foi para isso que tanta gente, inclusive a maioria das pessoas
que redigiram o projeto, lutou pela redemocratização
do país. Logo em seguida o mesmo artigo afirma que "os
condicionamentos deverão ter vínculos, tanto de
necessidade quanto de adequação, com finalidades
públicas específicas e relevantes". Se isso
alguma vez tivesse sido solicitado aos realizadores, o cinema
brasileiro possivelmente estaria extinto.
Mar
bravio
Ironicamente,
alguns artigos que em sua essência são muito bons
e que por isso mesmo poderiam ser objeto de aprovação
unânime pela categoria, acabam sendo desnecessariamente
contaminados por algumas palavras a mais. O melhor exemplo disso
é o artigo 4, que fala sobre os deveres do Poder Público
no que se refere à regulação das atividades
cinematográficas e audiovisuais.
Ao
longo de 16 alíneas, ele define como metas muita coisa
importante, como "propiciar a competição
efetiva no mercado cinematográfico e audiovisual"
e "fortalecer a produção independente e a
produção regional" (o que na verdade aponta
para o cumprimento do artigo 221 da Constituição
de 1988). Na 17ª alínea, no entanto, define como
um dever do Estado "proteger os valores éticos e
sociais da pessoa e da família". É difícil
entender qual o espaço disso num projeto sério
de regulação do audiovisual.
Muitas
formulações, e não apenas essa, são
desnecessárias e servem apenas para obscurecer as mais
consistentes. No artigo 38 parágrafo primeiro, o projeto
diz que "são modalidades de conteúdo audiovisual,
a serem regulamentadas pela Ancinav, a obra cinematográfica
e a obra videofonográfica de qualquer natureza, entre
as quais a publicitária, a jornalística, a esportiva
e a documental". Ao destacar essas últimas, o projeto
já parece reconhecer o caráter controverso do
que está dizendo. Por que insistir nisso?
Os
muitos méritos do projeto da Ancinav (produto que não
existe na proposta do CFJ) simplesmente não têm
visibilidade face a sugestões como essas, que não
deveriam estar ali e que prejudicam a discussão serena
sobre a essência da criação da agência
e de uma nova ordem na produção, veiculação
e exploração comercial do audiovisual no país.
A
própria extinção da Ancine – e não
sua transformação em Ancinav – é
parte do que há para ser discutido. Muitos cineastas
alegam que não se pode deixar de reconhecer o que a agência
fez nos últimos dois anos em termos de regulação
da atividade cinematográfica, e que seria um grande risco
interromper agora o muito que está em tramitação
para fazer voltar tudo à estaca zero.
Na
quinta-feira (12/8), a Folha de S. Paulo registrou a preocupação:
"A
Ancine (Agência Nacional do Cinema), que regulamenta
e fiscaliza o setor, ficará com sua capacidade
de agir bloqueada a partir de dezembro, caso não
sejam nomeados ainda neste ano novos diretores para
o órgão. A agência é responsável
pela aprovação de projetos de produção
de longas-metragens nas leis federais de incentivo e
pela fiscalização de normas como a que
prevê um número de dias obrigatório
para a exibição de filmes brasileiros
no cinema (cota de tela), entre outras atribuições."
Em
artigo para O Globo de segunda-feira (16/8), o ministro da Cultura
Gilberto Gil garante que isso não acontecerá.
"O Ministério da Cultura reitera o seu compromisso
com a criação na nova agência, a partir
da agência que existe hoje, a Ancine", diz o ministro.
Não é o que diz o projeto, em seu artigo 13 e
subseqüentes.
Gil
garante, no mesmo texto, que "todo e qualquer artigo da
minuta que possa ser interpretada como interferência indevida
será reescrito e eliminado", e que a minuta pode
ser vista e comentada por todos os cidadãos no site do
MinC. Até isso tem sido controverso. Os opositores do
projeto reclamam que os comentários decorrentes da consulta
pública não estão sendo postados no site,
ao contrário do que acontece com a maioria das consultas
dessa natureza.
"Por
que esse mistério de não expor as contribuições?
Por que a sociedade e a classe não podem tomar conhecimento
e acompanhar, passo a passo, podendo reciclar sua opinião
com as contribuições que forem sendo apresentadas,
tomando conhecimento dos argumentos, razões e dados de
outros segmentos?, pergunta Assunção Hernandez,
produtora e ex-presidente do CBC, Congresso Brasileiro de Cinema.
"Queremos e devemos acompanhar as discussões, no
momento mesmo em que elas são apresentadas, e termos
certeza de que estamos sendo ouvidos, nós todos que apresentarem
contribuições que nos permitam para atravessar
a salvo este mar bravio, encapelado e crivado de tubarões."
Poder
assustador
No
seu artigo, o ministro Gil garante que "felizmente já
passamos a fase da histeria e a minuta começa a ser criticada
e apoiada pelo que ela efetivamente é". Nem tanto,
provavelmente. Uma página antes do artigo do ministro
no Globo, um texto do cineasta Zelito Viana qualifica o projeto
de "monstrengo de 141 páginas" e afirma que
ele "ignora completamente a experiência de mais de
100 anos de cinema brasileiro e 50 anos de existência
da televisão" para começar tudo da estaca
zero. Em seguida, talvez em tom de blague, Zelito recomenda
que o governo dote "algo em torno de R$ 300 milhões
por ano, do orçamento, para ser aplicado a fundo perdido
na produção, distribuição e exibição
de filmes no cinema e nas televisões abertas e fechadas".
Ao
contrário do que supõe o ministro, o debate está
longe de ter entrado em velocidade de cruzeiro. Mas o fato é
que, em meio à tempestade de formulações
infelizes, não é difícil encontrar grandes
méritos no projeto da Ancinav. Como no seu artigo 56,
que trata do depósito, para preservação,
de cópias de obras realizadas com recursos públicos.
Se isso tivesse sido possível antes, a memória
audiovisual brasileira estaria bem mais protegida. Ou no artigo
75, que a rigor amplia o artigo 39 da antiga MP 2228-1 e estabelece
que as programadoras estrangeiras deverão aplicar não
mais 3%, mas 6% na co-produção com produtores
independentes brasileiros como alternativa ao pagamento do Condecine
de 11%.
O
projeto mantém o Programa de Apoio ao Desenvolvimento
do Cinema Brasileiro (Prodecine), além de criar um programa
semelhante para outras formas de produção audiovisual
(Prodav) e um prêmio adicional sobre a renda de bilheteria
(artigo 90). Cria incentivos para os patrocinadores de filmes
e programas independentes em televisão (artigo 93) e
encoraja a criação de redes de televisão
por assinatura com conteúdo majoritariamente brasileiro
(artigo 95). Não se pode descartar o impacto positivo
que tudo isso terá para a produção audiovisual
brasileira.
Outro
ponto importante é avaliar se é conveniente criar
uma agência que, de saída, absorva tanta coisa
– que regule cinema, televisão aberta e por assinatura,
conteúdo em telefonia móvel e internet, e tome
a si inclusive atribuições do Ministério
das Comunicações e da Anatel. Falando para a edição
de quinta-feira (12/8) do Estado de S.Paulo, o coordenador de
Cultura Digital do Ministério da Cultura, Cláudio
Prado, garantiu que "a sobreposição é
inevitável".
A
nova Ancinav é fruto de um projeto abrangente –
e aí está tanto um grande mérito quanto
um imenso perigo. O mérito é de reconhecer a convergência
não apenas do produto como também dos mecanismos
de produção e distribuição do audiovisual.
Daí a necessidade de se estabelecer ao um ambiente regulatório
adequado para a complexidade da atividade. Este ambiente pode
ser abrangente ou parcial. Se for parcial, terá dificuldades
em corrigir a assimetria já existente entre ambientes
regulatórios diferentes que tratam da mesma matéria.
Isto acontece, por exemplo, em relação à
circulação do mesmo conteúdo audiovisual
em mercados tão distintos como os das salas de exibição
cinematográfica, fitas de vídeo e DVDs, televisão
aberta, TV por assinatura, telefonia móvel e assim por
diante.
Se
for abrangente como pretende o projeto, cria uma agência
com um poder indiscutivelmente assustador. Por ela passará
toda a atividade de produção do audiovisual brasileiro
(incluindo filmes e vídeos brasileiros, filmes estrangeiros
produzidos no Brasil, filmes de publicidade, programas de televisão,
conteúdo para telefonia móvel e assim por diante),
bem como a exibição, distribuição
e veiculação eletrônica de todo produto
audiovisual consumido no país. A Ancinav incorpora, por
exemplo, toda a distribuição do audiovisual por
empresas de telecomunicação (artigo 37 parágrafo
3). Não é pouca coisa – e não se
pode esperar que um projeto assim deixe de criar controvérsias.
Teorias
conspiratórias
Os
que defendem esse gigantismo costumam argumentar que nos EUA
as regras da FCC (Federal Communications Commission) são
ainda mais rígidas. A argumentação não
procede, por duas razões principais. A primeira é
que não cabe à FCC regular nem cinema nem internet,
muito menos conteúdo audiovisual para qualquer aplicação.
A segunda é que a FCC está justamente celebrando
agora o primeiro aniversário do que se constituiu um
dos maiores movimentos de desregulamentação na
história recente dos EUA.
Como
se recorda, em julho de 2003 a FCC ampliou de 35% para 45% a
audiência permitida para uma rede de televisão
em qualquer mercado norte-americano. Ao mesmo tempo, autorizou
a propriedade cruzada de veículos (emissoras de TV e
jornais) num mesmo mercado, desde que houvesse nele nove ou
mais emissoras de televisão, e flexibilizou bastante
a propriedade cruzada (envolvendo jornais, rádios e emissoras
de TV) em mercados considerados pequenos ou médios.
A
decisão foi alvo de muitas críticas. Na época,
William Safire escreveu no New York Times que "nenhuma
outra decisão feita em Washington será capaz de
afetar tão profundamente a maneira como o cidadão
americano é informado e persuadido". Historicamente,
o movimento desregulatório levado a efeito pelo FCC desde
os anos 1980 tem sido visto pelos seus oponentes como uma violação
do Communications Act de 1934, especialmente no requerimento
para que as emissoras de TV sejam obrigadas a operar no interesse
público, permitindo aos concessionários obter
grandes lucros com pequenas contrapartidas.
Não
é muito correto, então, comparar a Ancinav à
FCC. Mas é importante que não se perca a noção
de que a regulamentação de televisão é
estritamente necessária, assim como a criação
de instrumentos que assegurem a diversificação
e o aprimoramento da programação. É igualmente
necessário fazer com que o ônus maior não
recaia justamente sobre as emissoras – que bem ou mal
tentam criar uma programação brasileira com um
mínimo de dignidade –, mas também e sobretudo
sobre os concessionários que transformam a produção
e veiculação televisiva numa atividade indigna
para quem a faz e para quem a consome.
Entre
as fortes diferenças que existem entre a proposta da
criação do Conselho Federal de Jornalismo e a
da Ancinav, portanto, estão os objetivos de ambas, que
na sua essência não as aproximam, mas as afastam.
Desgraçadamente, o imenso teor censório e totalitarista
da primeira fez com que boa parte da imprensa olhasse para a
segunda com a mesma ótica. Mas não é bem
assim. Se um aponta para o retrocesso, há no outro avanços
significativos, ainda que muitas vezes obscurecidos por formulações
impróprias. O MinC vai ter que trabalhar dobrado para
mostrar que há trigo de qualidade misturado a tanto joio.
Já está tentando fazer isso em visitas programadas
às redações de vários jornais.
Todos
os lados têm que entender também que, se de parte
do MinC não existe apenas a intenção de
dirigir o conteúdo do cinema, da televisão e de
toda a produção audiovisual brasileira, as críticas
lançadas ao projeto não são fruto apenas
de campanhas orquestradas com objetivos inconfessáveis.
É natural, por exemplo, que as televisões se oponham
a uma taxação que, segundo elas, representa mais
de 30% de seus lucros – e que lutem contra isso com os
meios que dispõem. É mais do que natural, também,
que quase toda a imprensa – que ultimamente tem divergido
mais do que adotado posições corporativistas –
demonstre inquietação face a possibilidade de
cerceamento da liberdade de expressão. Não apenas
natural, aliás, como desejável. Se há uma
forte reação contrária, vale refletir sobre
o que é inaceitável antes de identificar campanhas.
Teorias conspiratórias não costumam ajudar nesses
momentos.
O
fato é que a sociedade tem muito do que reclamar, assim
como o MinC tem uma grande substância a defender. Analisado
com serenidade, o projeto da Ancinav sobrevive a muitas das
críticas de que tem sido alvo e pode mostrar que há
bem mais do que o pensamento de Stalin na roupagem stalinista
com que acabou sendo apresentado à população
brasileira.
ANCINAV
& CFJ
Muita reação, pouca informação.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 17/08/2004
Luciano Martins Costa (*)
Os
brasileiros ficaram sabendo, nos últimos dias, que colocaram
no Palácio do Planalto um tirano enlouquecido mas genial,
que soube disfarçar-se de democrata durante 20 anos até
chegar ao poder e finalmente revelar seu plano sinistro: estabelecer
restrições à liberdade de imprensa e colocar
sob controle a produção dita cultural, muito provavelmente
com o propósito de impor à sociedade uma nova
era de "realismo metalúrgico" e culto à
personalidade.
O
que os brasileiros seguem ignorando, a depender da sua imprensa,
é que o projeto de criação da Ancinav –
Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual – vem
sendo discutido em âmbito oficial há 14 meses e
está disponível para consulta popular no site
do Ministério da Cultura, com a possibilidade da postagem
de opiniões e sugestões no endereço (projetoancinav@minc.com.br).
Tem como objetivo explícito criar alguma regulamentação
no mercado, reduzir os riscos de manipulação de
valores transferidos do erário para contas particulares
em função de incentivos fiscais e gerar oportunidades
fora do circuito dos produtores ligados aos grandes grupos de
mídia ou herdeiros de instituições financeiras.
Se
o projeto é bom, ruim ou regular, só quem se tem
disponibilidade para ler seus 141 artigos e três anexos
pode dizer – porque, pela algaravia de artigos e comentários
que nos dá a imprensa, pouco ou nada se consegue conhecer
que não seja fruto de premissas muito anteriores à
eleição de Lula e à própria invenção
do cinema, e da explicitação da mistura de interesses
entre jornalismo e a indústria do entretenimento.
A
imprensa revela a si mesma neste episódio da mesma maneira
como se revelava quando o Estado de S.Paulo, 20 anos atrás,
só se referia ao jornalista Antonio Parahyba Quartim
de Moraes, então assessor do governador Franco Montoro,
pelo nome Parahyba – babando preconceitos ancestrais em
vez de expor seus argumentos. Foge-se do mérito, tenta-se
reduzir o peso do oponente não por suas idéias,
mas por uma referência que se supõe desairosa a
suas origens.
Leitura
oblíqua
As
regras mais comezinhas do jornalismo de manual foram ignoradas
neste agosto agourento, por conta dos projetos da Ancinav e
do polêmico Conselho Federal de Jornalismo. A pauta foi
tomada das mãos dos pauteiros e entregue aos acionistas,
e praticamente toda a imprensa se saiu com o discurso monolítico
segundo o qual o governo tentava, pela via da regulamentação
do jornalismo, e pela via do controle da produção
cultural, criar barreiras contra a liberdade de informar e de
se expressar.
A
base natural da indústria de cinema, fundada nos produtores
de curtas-metragens, por exemplo, nunca foi ouvida. Faça-se
constar, por falar nisso, que a Associação
Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas apóia
o projeto. Não consta que a entidade seja dominada por
militantes petistas.
Para
complicar, misturou-se no mesmo pote o projeto da Ancinav e
o da criação do Conselho Federal de Jornalismo,
e temos então a enxurrada de editoriais e artigos sob
encomenda a denunciar o "viés autoritário"
do governo, a conspiração pelo fim da democracia
e, mais uma vez, a revelar os extraordinários poderes
do ministro da Casa Civil, José Dirceu, assumindo na
ocasião o papel de um intocável, onipotente e
invulnerável Rasputin ocupado permanentemente em minar
as bases da sociedade democrática que construímos.
Pronto:
temos, então, a depender da credibilidade que se dê
à mídia, um quadro tenebroso no qual um presidente
de viés esquerdista, amigo do ditador cubano Fidel Castro
e da outra ameaça continental, o presidente venezuelano
Hugo Chávez, trama para jogar o país na rota da
ditadura comunista. Faltou dizer que o adormecido programa Fome
Zero deverá adicionar à dieta nacional o ensopado
de guri, já que, como sabemos, comunista come criancinha.
E convocar a Liga das Senhoras Católicas para defender
o legado de Maria.
No
caso da Ancinav, ninguém foi perguntar ao ministro da
Cultura, Gilberto Gil, o que ele pensava do projeto. Falou-se
em nome dele, e o que se disse é que não havia
sido consultado, ou que não tivera a possibilidade de
analisar a proposta. Sem mídia, foi preciso que o ministro
usasse a oportunidade de uma aula magna na Universidade de São
Paulo, em 10/8, para dizer que conhecia, sim, o texto, e que
seus detratores é que não se haviam dado o trabalho
de ler o projeto até o fim.
Código
aceitável
Com
a verve que lhe é peculiar, o articulista Arnaldo Jabor,
cineasta que já nos deu Toda nudez será castigada,
saiu-se com uma destrambelhada catilinária segundo a
qual o presidente incorpora durante o dia a bela figura do operário
que resistiu à ditadura e, ao cair da noite, se transforma
na besta do apocalipse democrático.
Da
mesma forma, quanto ao projeto do Conselho Federal de Jornalismo
– enfiada a proposta no mesmo saco em que se espanca a
Ancinav –, a mídia age como uma histérica,
certamente premida, de um lado, pela ameaça de algum
controle e da cobrança de uma taxa de 4% sobre o faturamento
publicitário para ajudar a bancar uma indústria
nacional de cinema e, do outro, pela hipótese de ver
discutidos certos abusos de programas ditos populares e alguma
manipulação do noticiário em período
eleitoral.
Vide
o texto da revista IstoÉ a respeito de Ibsen Pinheiro,
ex-presidente da Câmara dos Deputados, que em 1993 foi
acusado pela revista Veja e cassado por supostamente haver movimentado
irregularmente 1 milhão de dólares. Sabe-se hoje
que o então deputado, agora candidato a vereador em Porto
Alegre, havia movimentado 1 mil dólares, não 1
milhão. As liberdades democráticas são
ameaçadas exatamente aí, nos casos inexplicáveis
para o público em que uma ou um grupo de publicações
decide quem é honesto o suficiente para seguir com seus
sonhos na política, nos negócios ou na vida profissional.
Quando
a imprensa erra de propósito, na linha ou na intensidade
de suas opiniões, forçando a infiltração
do noticiário pelo interesse que deveria estar restrito
aos editoriais, aí sim corre risco a liberdade de expressão.
Se houve, portanto, alguma sombra de ameaça sobre a saúde
das liberdades democráticas, ela escureceu e se adensou
justamente na falta de reflexão e de honestidade intelectual
com que a imprensa reagiu a ambas as propostas.
A
rigor, alguém em sã consciência acredita
na possibilidade de aprovação, pelo Congresso,
e na colocação em prática de um conselho
que venha a criar empecilhos à liberdade de expressão?
Mesmo que, no âmago da mais irracional militância,
juntem-se os mais empedernidos burocratas à permanente
disponibilidade do ministro Dirceu para as chamadas articulações
de bastidores, passará pela cabeça de alguém
que possa vir à luz algum instrumento de censura que
contrarie o que está estabelecido na Constituição?
Moldes
clássicos
É
livre o debate e cumpre a todos a eterna vigilância, mas,
mesmo que se parta de um texto absolutamente desprovido de sentido,
com um viés autoritário ou – o que é
mais real, no caso – revelador dos fortes traumas petistas
quanto à real disposição da imprensa nacional
para a isenção e o equilíbrio, o que deverá
vir à tona da realidade, se é que veremos nascer
algum instituto regulatório da imprensa, haverá
de honrar a Constituição e nossa jovem democracia.
Quem
sabe, como aconteceu na Inglaterra nos anos 1990, após
a onda de bisbilhotice que invadiu as câmaras da monarquia,
venhamos a ter um órgão de auto-regulamentação
que faça conjugar os interesses de jornalistas aos de
seus patrões, em conformidade com o que se espera seja
o papel social da imprensa. Se metade da energia aplicada para
demonizar o governo por mexer nesse vespeiro fosse dirigida
à busca de um código realmente aceitável
para a mídia, há muito teríamos consolidado
um terreno mais seguro para a liberdade de expressão.
Os
traumas que podem estar na origem da polêmica proposta
do Conselho de Jornalismo e da Ancinav são compreensíveis,
embora não se justifique qualquer tentativa de controle
pelo Estado do que deve ou não ser considerado aceitável
como jornalismo ou como produção dita cultural.
Para a imprensa nacional, Lula é bom quando aceita o
jogo do FMI e sacrifica sua popularidade para apoiar uma política
econômica que agrada aos grandes protagonistas do mercado.
Quando sai do roteiro que lhe destinaram os grandes produtores
do pensamento nacional, ele vira stalinista.
Enquanto
ninou a possibilidade de uma ajuda do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, a imprensa era tolerante e capaz de
elaborar os mais intricados raciocínios para dizer ao
leitor e convencer a si própria de que o presidente,
afinal, não é assim tão despreparado.
Esgotadas
as negociações para o acesso aos cofres públicos,
a imprensa tira a máscara. E no meio do tiroteio, quando
a maioria dos comentaristas parece estar pensando com o útero
(ou com a próstata), o leitor mais atento haverá
de se questionar se, de fato, não teria a sociedade,
já há algum tempo, criado uma espécie de
conselho regulador da mídia, nos mais clássicos
moldes das leis de mercado, ao abandonar, em massa, a leitura
de periódicos.
(*)
Jornalista
|