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Informação:
Observatório
da Imprensa - 16/11/2004
Venício
A. de Lima (*)
Na
terça-feira (9/11), alguns jornais publicaram um anúncio
com o título "Fato Relevante" comunicando "à
sociedade e aos poderes públicos" a fundação
da Abra – Associação Brasileira de Radiodifusores.
Assinado pelo seu presidente João Carlos Saad –
e pelas redes de televisão SBT, Record, RedeTV! e Bandeirantes
–, o comunicado confirma a anunciada cisão entre
a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de
Rádio e Televisão) e as principais redes que disputam
o mercado com a Rede Globo de Televisão.
A
Abert foi fundada em 1962, sob a liderança dos Diários
e Emissoras Associadas, representados pelo ex-deputado e ex-senador
João Calmon, já falecido, no bojo da aprovação
do Código Brasileiro de Telecomunicações
(Lei n. 4.117 de 27/8/1962) e da derrubada, pelo Congresso Nacional,
de todos os 52 vetos do então presidente João
Goulart. Desde então, a Abert reinava absoluta como entidade
representativa dos interesses da radiodifusão privada
e comercial.
Mas
muita coisa mudou no Brasil – e, sobretudo, na radiodifusão
– desde 1962.
Ainda
naquela década, em 1965, surgiu a TV Globo do Rio de
Janeiro – que logo se transformou em Rede Globo e consolidou-se,
ao longo do regime militar, como a principal rede de televisão
brasileira. A Rede Tupi, dos Diários Associados, acabou
sendo "repartida" em duas outras redes, em 1980: a
Manchete – que foi posteriormente substituída pela
RedeTV! – e o SBT.
Duas
razões
Apesar
de alguns poucos períodos de declínio, a Rede
Globo conseguiu, ao longo dos seus quase 40 anos, ocupar uma
posição de liderança absoluta na televisão
aberta. Principal esteio do maior grupo empresarial de mídia
do país – as Organizações Globo –,
a Rede Globo estabeleceu sua liderança não só
em relação à audiência mas, principalmente,
em relação à distribuição
das verbas publicitárias de anunciantes privados e oficiais.
Mais de 50%, tanto de uma quanto de outra, têm sido destinadas
à Globo, já faz um bom tempo.
Isso
se traduz em enorme poder não só empresarial como,
acima de tudo, político. E esse poder tem sido exercido
efetivamente em inúmeras situações da nossa
história política, como é de conhecimento
geral.
Diante
de tamanha predominância, era previsível que algum
tipo de conflito de interesses fosse se desenvolvendo entre
a Globo e as demais empresas que disputam o mercado de rádio
e televisão. E a Abert, que naturalmente havia se transformado
em porta-voz dos interesses do grupo dominante, viria a ser
o espaço onde a disputa se manifestaria de forma mais
clara.
Os
primeiros sinais de conflito de interesses surgiram com o afastamento,
primeiro da Record (1999), e logo da Rede Bandeirantes (2001),
da Abert. A Record chegou mesmo a criar uma entidade de representação
– a Abratel (Associação Brasileira de Radiodifusão
e Telecomunicações), que ainda existe e funciona.
No
início de 2002, por ocasião da tramitação
da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permitia a entrada
de capital estrangeiro na radiodifusão, a Bandeirantes,
a Record e o SBT publicaram um comunicado na imprensa informando
que a Abert não estava mais autorizada a representar
os seus interesses.
Duas
razões para o rompimento se tornaram públicas
naquela época: uma referia-se ao fato de a Abert, do
ponto de vista das redes que se desligavam, ter negociado desnecessariamente
com os partidos de oposição o apoio da entidade
à instalação do Conselho de Comunicação
Social em troca da aprovação da PEC em regime
de urgência; e, a outra, referia-se à posição
da entidade de não entrar na Justiça contra o
Regulamento dos Serviços de Multimídia (aprovado
pela Anatel, em 2001) para favorecer os interesses econômicos
das Organizações Globo no negócio das telecomunicações.
Tempo
ao tempo
Na
época, chegou a ser divulgada a constituição
da UneTV – União de Redes e Emissoras de Televisão,
com a participação da Record, da Bandeirantes
e do SBT. Alguns meses depois, porém, circulou a informação
de que a Record havia abandonado o grupo e voltado a se aliar
à Rede Globo.
A
discussão em torno do empréstimo do BNDES para
os grupos privados de mídia, no entanto, voltou a reacender
os conflitos. Em 2004, tanto a Record quanto a RedeTV! desligaram-se
formalmente da Abert. As razões da discordância
vieram à tona em maio passado, por ocasião de
audiência pública na Comissão de Educação
do Senado Federal, quando se discutiam os objetivos do empréstimo:
saldar dívidas ou financiar investimentos produtivos?
A primeira alternativa – que estaria sendo defendida pela
Abert – favorecia claramente a Globo, grupo com maior
endividamento.
Há
ainda uma queixa antiga de que, dado o seu enorme poder político,
o volume de verbas publicitárias oficiais destinadas
à Globo não corresponderia à audiência
da rede – prejudicando, portanto, suas concorrentes.
Sejam
quais forem as razões, essa é a primeira vez na
história da radiodifusão brasileira que os principais
grupos empresariais do setor decidem atuar representados por
entidades diferentes. Isso significaria o enfraquecimento da
Abert ou o fato de que os radiodifusores não unirão
suas forças para atingir objetivos comuns?
A
recente derrubada, pelo Senado Federal, da Medida Provisória
que alterava a forma pela qual os programas de TV são
classificados (e que havia sido aprovada na Câmara dos
Deputados), confirmou o enorme poder político dos empresários
de radiodifusão. A MP avançava ao incluir a participação
de entidades da sociedade civil no processo classificatório,
mas foi considerada "uma forma de censura" pelos radiodifusores.
De
qualquer maneira, considerando que convivemos com a clara hegemonia
de um único grupo que, além da televisão,
atua em praticamente todas as outras áreas de mídia,
o aparecimento da Abra poderia marcar o início de uma
competição mais equilibrada no setor? Mais competição
– mesmo que entre uns poucos grupos – poderia significar
algum tipo de avanço a favor do interesse público?
Não
há qualquer indicação nesse sentido, mas
sempre se tem alguma esperança. Só o tempo dirá.
É esperar e conferir.
(*)
Professor aposentado da Universidade de Brasília, fundador
e primeiro coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia
e Política da UnB, autor de Mídia: teoria e política
(Editora Fundação Perseu Abramo)
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